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Mudando o jogo

03 novembro 2015
Eu tenho este blog há 5 anos. Antes dele tive outros blogs, de textos, de ilustrações, de inspirações. Mas este é o "projeto" no qual estou engajada há mais tempo e em todo esse tempo a pergunta que mais me fizeram foi: "como é que você ainda não ficou rica e famosa com suas redes sociais? Tá esperando o quê????" Leiam isto com um certo tom de indignação por parte do interlocutor da pergunta, por que o sentimento é quase esse. Falam como se eu estivesse perdendo a chance da minha vida, como se eu fosse dona de um potencial gigantesco e fosse cega por não enxergar a oportunidade que é ser uma "blogueira famosa" e simplesmente não enxergam o tamanho da dependência que isso pode causar.

Todas as vezes que escutei essa pergunta, respondi da mesma forma: o blog não é um fim, é um meio. Não é com o blog que eu vou ganhar meu dinheiro, mas divulgar meu trabalho fora dele. Com o blog eu tive a oportunidade de vir para o Rio, escrever roteiros para uma marca feminina que falava de moda e trabalhar numa das maiores agências do país, por que precisavam de alguém com esse perfil de linguagem. Com minhas redes sociais eu pude migrar da função de ser uma diretora de arte offline (que faz cartaz, outdoor, etc) para ser uma criativa digital, por que eu entendo como funciona esse ambiente. Com minhas ilustrações postadas no instagram eu pude fazer minha primeira coleção de estampas para uma marca de biquinis. E com essas mesmas ferramentas eu hoje divulgo tudo o que crio para a Prosa. Eu sou dependente das minhas redes para divulgar meu trabalho, mas não precisaria dessas redes para hoje, conseguir trabalho numa agência. Eu continuo tendo uma profissão que me dá sustento independente de eu postar fotos minhas no instagram ou não.

Mas esse foi o caminho que eu escolhi. É óbvio que ganhar dinheiro com o blog/instagram é maravilhoso e é sim uma oportunidade de ganhar um extra, principalmente no meu caso, que sou uma empreendedora em começo de carreira e o dinheiro não sobra. Mas o outro lado da moeda é feio e duro. Vou explicar:

Há tempos observo o comportamento dos perfis que fazem sucesso repentino no instagram. Observo por que tento compreender por quê o meu não faz tanto sucesso assim, vejam só. Eu me dei ao trabalho de me incomodar com algo tão irrelevante quanto isso por que até achava meu conteúdo interessantinho e tal e sim, me comparei a outras pessoas, por que sou humana. Mas cheguei a uma conclusão: meu perfil/personalidade/estilo não é tão comercial. E ponto. E assim parei de sofrer, por que no fundo não quero mudar essa essência. Mas a verdade é que quanto mais pessoas me seguirem, mais pessoas vão ver meu trabalho na Prosa e isso é o que realmente me interessa pra mim.

Contudo, o que eu observo é que os perfis que mais fazem sucesso são aqueles que não trazem nada além da exploração excessiva da imagem da pessoa. Perfis construídos com selfies, looks, frases de efeito, idas ao salão. É isso que "as pessoas curtem", dizem. E realmente não tem nada de mais nisso, mas em algum ponto isso é uma espécie de epidemia coletiva. Por isso, a título de curiosidade mesmo, comecei fiscalizar quantos likes recebe uma foto minha e quantos likes recebe uma obra de arte que eu curti em alguma exposição e eu nem preciso dizer quem ganha essa batalha, né? A selfie, claro. Mas a partir do momento em que uma ~web celebridade~ toma consciência dessa (ir)realidade, ela transforma toda a sua existência em algo "publicável" e até pra ir na padaria da esquina, ela não esquecerá de usar uma make poderosa e manter os cabelos impecáveis. E digo isto por que já me incomodei de ser "reconhecida" na rua e estar descabelada e de chinelo, como se minha imagem completamente NORMAL fosse algo absurdo. Quando a pessoa começa a ganhar dinheiro com isso, o caso fica ainda mais grave. Ela se torna uma vitrine virtual de marcas, poses e um estilo de vida que, em raríssimas exceções, correspondem à realidade daquele ser humano que acorda com olheiras e bafo como todo mundo.

O que acontece é que criamos uma realidade que agrada aos outros e depois ficamos reféns dessa realidade, nos sentindo eternamente obrigadas a reproduzir aquele mundo fantástico dentro das nossas redes. E isso é o universo de um ser humano famoso ou não. Agora imaginem a proporção desse problema refletido numa geração inteira? E aí eu compreendo quando dizem que ser blogueira/personalidade digital/whatever é um trabalho, por que é mesmo. Dá mesmo muito trabalho sermos constantemente sequestradas da nossa vida comum pelo simples fato de termos criado um perfil que "inspira" tantas pessoas. Até as blogueiras da "vida real" como eu, tem sua parcela imensa de irrealidade, por que no fundo, como minha própria mãe diz:



 "Carolina, ninguém quer ver sua realidade nua e crua por que isso é o que todos nós vivemos. As pessoas querem ver o sonho que ameniza e nos distrai das mazelas das nossas próprias vidas." Mamãe sempre sabe das coisas.


 Imaginem um instagram de legendas reais.


Vejo cada dia mais meninas abandonando suas profissões para viver das suas redes sociais. Vivem da sua imagem, da sua beleza, do seu sorriso. E até aí tudo bem. Mas a velhice chega para todos, as rugas surgem, as celulites também, e me pergunto o que farão depois que a juventude passar. Se hoje Iris Apfel é modelo aos 94 anos, é por que ela construiu algo maior que a beleza que nunca teve. Se tudo o que você faz é pautado pela própria imagem, o que você será depois que essa imagem não existir mais? Será que elas pensam nisso? Será que pensam como farão essa transição? Ou pretendem viver para sempre tirando fotos "inspiradoras" com símbolo de paz e amor nos dedos, enquanto travam uma guerra interior? Não seria essa uma caricatura triste de um vazio muito grande que ainda está por vir? A conta vem a galope.

Pergunto tudo isso por que eu mesma sinto esse vazio em alguns momentos e olha que eu nem sou famosa. Sinto angústia quando não tenho nenhuma foto legal pra postar no meu instagram ou quando o dia está chuvoso e a paisagem não colabora para os meus clicks. Ou pior, quando não tenho uma foto que vai gerar likes. Isso sem contar em quantas vezes perdi as contas de quantas vezes me senti culpada por passar 3 horas no instagram bisbilhotando a vida das pessoas enquanto eu poderia estar lendo um livro. Ou imaginando como será lindo quando eu tiver filhos e postar fotos deles. E os filhos ainda nem nasceram, gente. Isso é doentio e muito sério. Tão sério que transformou a vida de Essena Oneil, blogueira australiana que cometeu recentemente o que eu chamo de suicídio digital.

Essena tem mais de meio milhão de seguidores no instagram e consquistou esse número marcante à custa da sua própria vida. Ela não morreu fisicamente, mas no sentido figurado. Perdeu-se de si, das coisas e pessoas que amava, e virou um fantoche lucrativo da realidade ilusória que criou para si mesma por que, um dia, ela achou que aquilo era um sonho, mas não foi.

Quando li esta matéria sobre Essena, eu entendi perfeitamente o que ela fez. Algo que já passou pela minha cabeça inúmeras vezes e eu nem tenho 500k no instagram. Essena apagou seus vídeos mais assistidos do youtube, apagou seu tumblr e excluiu cerca de 2 mil fotos no instagram. Nas fotos que sobraram, ela editou todas as legendas para mostrar a REALIDADE por trás daquelas imagens e o resultado foi chocante. Essena ganhou muito dinheiro com suas redes sociais, mas perdeu a conexão consigo mesma. Esqueceu que amava artes plásticas e virou uma modelo de instagram, fotografando biquinis para marcas diversas. Esqueceu suas relações familiares e, inclusive, brigava com sua irmã para que ela tirasse melhores fotos. Esqueceu o prazer de fazer um passeio sem compromisso e transformou cada momento e cada paisagem em ensaios fotográficos extenuantes, só para ter conteúdo para postar em suas redes sociais. Criou uma realidade que só fazia sentido no instagram, por que fora dela, era esvaziada de sentido. E quantas pessoas fazem isso? Milhões, inclusive eu. E justamente por isso eu já me questionei centenas de vezes sobre o que fazemos diariamente com nossas vidas online. Eu, que sempre fui sincera e sempre apreciei a verdade, doa a quem doer, me vi doída com o relato de Essena.

Me vi doída cada vez que eu deixei de postar algo que eu achava incrível, simplesmente por que "as pessoas não vão curtir". Quão doente é sentir isso? Em maior ou menor escala, o fato é que estamos reféns das nossas redes sociais a tal ponto que não sentimos que vivemos algo se simplesmente não compartilharmos essa vivência com o maior número de pessoas possível, na maior quantidade possível de redes. A nossa dependência psicológica da aceitação via likes é tão grande que tudo o que compramos ou ganhamos precisa ser divulgado. O que comemos precisa ser compartilhado. Até o cachorro e o gato que temos precisam também ser celebridades de instagram, com perfis, poses e fantasias, e nós nem sabemos mais qual é a função de cada esfera da nossa vida, a não ser servir como mais um cenário idílico da novela que criamos para mostrar para os outros. Presenciamos a era do Eu-Ostentação. O caso é tão sério que, dia desses, me perguntaram se eu estava solteira novamente, simplesmente por que nunca mais postei fotos do boy no meu instagram e eu fiquei verdadeiramente chocada. É como se a existência das coisas da minha vida dependesse exclusivamente da exposição delas nas minhas redes sociais.

Eu sempre dei muito valor à minha liberdade (artística, física e intelectual) e sempre tive sérios problemas em assumir compromissos dos quais eu não poderia desistir. Mas a partir do momento que você "cria" esse universo paralelo você fica, de certa forma, enclausurada nele, comprometida a levar adiante algo que nem sempre te faz feliz e por um simples motivo: as pessoas esperam aquilo de você e pior, elas te cobram por algo que recebem de graça, mas que para você tem um custo. Isso acontece em qualquer profissão e com qualquer pessoa, mas quando o motivo da infelicidade somos nós mesmos, o buraco é mais embaixo. E se já é difícil atender às expectativas que nossos amigos e famílias exigem de nós, imagina fazer isso para milhares de seguidores? Uma vez que você "entra nesse jogo" é imperativo que você saia dele vencedor ou as pessoas simplesmente não vão entender COMO você ainda não ficou rica e famosa, por que simplesmente ninguém trabalha com a opção mais sensata que é você querer preservar apenas o que te faz feliz.

Hoje, mais do que nunca, eu sei que meu blog não é meu futuro e sim uma ferramenta para meus projetos, mas se for para eu enriquecer, que seja de uma vida cheia dos meus sonhos, das exposições que eu vou, das coisas que eu crio, dos livros que eu leio, do trabalho que eu faço, das pessoas que eu amo, dos destinos que eu visito e das palavras que eu gosto de escrever aqui para vocês. O blog não pode ser maior que eu. Meu instagram não pode ser maior que minha vida real e que minha imagem não pode ser maior que meu intelecto, nunca, jamais, sob hipótese ou dinheiro algum. E esse é um mantra que tento repetir para mim mesma cada vez que me sinto "invalidada" por não ter nada "interessante" para expor. Por enquanto, eu e tantas mulheres, ainda sofremos as angústias de uma geração que vive de likes, mas tenho fé que a necessidade de uma realidade verdadeira vai chegar para todas nós. Já está chegando. No momento, me pergunto quantas meninas já chegaram a essa conclusão e espero que consigam entender que, daqui a 50 anos, nossos cérebros vão valer mais que nossas peles perfeitas e cabelos impecavelmente ondulados e que é preciso mudar o jogo para construirmos algo mais consistente que fotos bonitas para o instagram.