E quando eu digo "hoje", esse hoje é todos os dias. Cada vez que eu acordo e abro os olhos. Acordar é uma espécie de nascimento, uma saída de um estado latente para um despertar consciente. Nasci mulher. Todos os dias eu nasço mulher e ao nascer eu tive uma sentença de vida decretada: "você não tem esse direito."
Ontem li
esta matéria, o primeiro passo para a criminalização de todo tipo de aborto no Brasil, sob a justificativa de que é preciso
garantir o direito à dignidade da vida humana e que essa vida começa na concepção e, portanto, mulheres grávidas de estupradores, mães com risco de vida, mães carregando bebês anencéfalos, poderão ser criminalizadas pelo aborto, pela violação ao direito à vida, caso esta PEC seja aprovada na Câmara.
Deitei no meu travesseiro e chorei. Não de tristeza, mas de revolta, de raiva, de ódio, de impotência. Chorei por mim e pelas mais de 3,5 bilhões de mulheres no mundo que nasceram com a mesma sentença que eu: "você não tem esse direito". Chorei pela estimativa de que mais de 400 mil mulheres são abusadas no Brasil por ano, mas que apenas 10% dos casos são denunciados à polícia. Chorei por saber que 70% dessas mulheres são, na verdade, meninas e adolescentes e que 89% das mulheres estupradas são pobres, de baixíssima renda e pouquíssima educação. E que 15% desses casos existem dois ou mais abusadores envolvidos e que em 70% dos casos são homens conhecidos ou próximos da vítima. Chorei por saber que 90% das mulheres tem medo de ser estupradas. Que eu tenho medo de ser estuprada.
Você, mulher, não tem direito ao próprio corpo. Você, mulher, não tem direito à dignidade humana. Você, mulher, não tem direito à vida. Mas para nossos deputados, o feto gerado do teu estupro, do teu trauma, tem. Você não tem o direito de decidir se quer ou não prosseguir com a gravidez. Você pode morrer no parto, de uma gravidez aos 12 anos, mas teu feto, que nem nasceu, é mais sagrado que você. Você pode parar seus estudos para cuidar de um filho, enquanto o pai da criança te abandona, porque teu feto merece um futuro, mas você não. Você pode sacrificar sua vida para criar um filho anencéfalo, porque a vida quase vegetativa dele, vale mais do que a sua. Porque você, mulher, não tem direito de escolha. Teu corpo é público, é do homem, da sociedade, da guerra, do machismo, da religião e de quem mais quiser te violar.
Diante de mais um golpe aos direitos femininos, eu chorei de raiva por todos os outros direitos que me foram usurpados no exato momento em que eu nasci e pelo único motivo de nascer mulher.
O primeiro deles: a minha voz. Aprendi as primeiras palavras aos 10 meses, precoce. Mas aos poucos percebi que eu não tinha direito a usar minha voz como eu bem entendesse. Não. Dos meus lábios delicados não podiam sair palavrões, nem afrontas ao frágil ego masculino. Não podiam sair respostas ao machismo, nem aos comentários nojentos que eu escutava na rua, porque além do corpo, meus ouvidos também podiam ser violados com xingamentos. Minha voz serviria apenas para proferir palavras boas, sem revolta, domesticadas. E sempre que eu quis me fazer ouvir numa sociedade machista, o mundo me colocava no meu lugar: você é reativa, revoltada, EMOCIONALMENTE IMATURA, mimizenta, feminazi, esquerdopata. Como se minha dor não fosse válida, porque, por lei, ela não é.
Depois eu chorei pelo meu corpo. Esse âmago de pele, osso e músculo que é um prato servido a quem quiser devorar. Um corpo que aos 7 anos recebeu o primeiro assédio sexual vindo de um velho, fato que me emudeceu e me envergonhou e me fez achar que a culpa era minha. Um corpo que só teve coragem de contar pra própria mãe o que aconteceu, quando já tinha 30 anos de idade. Porque a voz, essa voz que eu perdi tão cedo, nunca encontrou forças pra assumir tal violência. Um corpo que ouviu da própria mãe: "quase todas as mulheres da nossa família também já foram abusadas." Dito com uma naturalidade chocante, como se a norma da vida feminina afinal, fosse o abuso.
Depois eu chorei pelos meus ouvidos. Chorei por todas as vezes que um corpo feminino foi julgado pelos homens, pela mídia, pelas próprias mulheres. Todas as vezes que uma mulher foi xingada pelas suas escolhas, tolhida pelas suas vontades, desrespeitada em praça pública ou privada, criminalizada por não querer ou poder ter um filho. Chorei pelo dia que escutei a namorada de um cara dizer que a menina estuprada por 30 homens "procurou" aquilo porque ela andava com bandido. Chorei por cada piada machista que meus ouvidos foram obrigados a ouvir. Chorei de ódio por cada chefe que se aproximou de mim pra me dizer que eu deveria ser mais leve ao confrontar suas ideias machistas.
Depois eu chorei pela minha liberdade: de ir e vir em paz. De saber que vou sair de casa intacta e voltar intacta. De não (fora) temer que meu corpo seja violado. Chorei porque escolho a roupa que eu posso usar quando estou acompanhada do marido e a que eu posso usar quando estou sozinha. Chorei porque um dia vesti uma saia de oncinha e me chamaram de puta. Coloquei silicone e me chamaram de puta. Fiquei com quem eu queria e me chamaram de puta. Respondi macho escroto na rua e me chamaram de filha da puta. Afinal, mamãe também é do ramo.
Depois eu chorei pelo meu futuro: aquele que nunca chegou. Porque me sentia inteligente e capaz, mas os cargos de chefia quase sempre são dos homens. Porque me dediquei e trabalhei mais que todo mundo, mas enfrentei egos masculinos e nunca recebi uma promoção de cargo na vida, ao contrário, fui demitida. Porque estudei mais, me esforcei mais, batalhei mais, trabalhei mais horas, mas diversas vezes fui chefiada por homens menos preparados que eu. Porque usei a minha voz pra defender o que achava certo e justo e fui calada todas as vezes, afinal, perdi a voz cedo, lembram?
Depois eu chorei por outras mulheres. Aquelas às quais não foram dadas opções de vida a não ser a realidade diária do abuso físico, emocional e psicológico desde a mais tenra idade. Aquelas que nasceram em condições de pobreza extrema, falta de educação e oportunidades. Aquelas para as quais o machismo, o racismo e a misoginia são o prato do dia, self-service, sem balança. Aquelas para as quais a violação do seu corpo é algo NATURAL, pois é a única realidade que conhecem. Aquelas que morrem nas clínicas clandestinas de aborto, porque nosso estado "laico", legislado por homens, impregnado por religiões que representam apenas a si mesmas, e desprovido de mulheres no poder, defende que a vida delas vale menos que a de um feto.
Depois eu chorei pela falta de informação. Aquela que diz que o feminismo não é necessário, porque "eu quero ser dona de casa", sem nem perceber que, o simples fato de você poder "querer" alguma coisa, poder ter essa escolha, já é uma vitória conquistada pelos anos de luta feminista. Chorei por todos aqueles comentários do G1 que falam que o mundo tá chato, que tudo é mimimi e vitimismo, porque parece que bom mesmo, era quando mulher tinha que apanhar calada do marido. Chorei por todas as justificativas religiosas para "defender a vida humana", quando a própria religião mata e estupra tanta gente pelo mundo em nome de qualquer deus, há séculos. E chorei pela dificuldade que as pessoas tem em entender que: se você não quer abortar, não aborte. Mas não obrigue outra mulher a seguir o que VOCÊ acha certo pra VOCÊ. Por fim, chorei por cada homem dando pitaco na vida das mulheres, supondo suas necessidades, regendo nossa vida com pontos de vista criados a partir de seus próprios pênis e simplesmente assistindo ao nosso sofrimento sem fazer NADA, mesmo concordando que talvez a gente até mereça um pouco de dignidade.
Os homens que defendem a criminalização do aborto, são os mesmos que estupram as mulheres, abandonam os filhos e até pagam o aborto quando não querem ser pais. Os homens que defendem a dignidade da vida humana de um feto, são os mesmos que querem ver um bandido morto e não se importam quando uma criança de 9 anos é vítima de bala perdida dentro de uma favela. A bala e a bíblia andam juntas e tem alvos em comum. A vida só tem valor dentro do útero da mulher, ainda que ela seja a alma sacrificada. Fora dela, qualquer criança pode ser abusada, assediada, estuprada, abandonada e morta, afinal, ela já nasceu e isso que importa. A "dádiva" de gerar um filho é, na verdade, uma obrigação. Não é escolha da mulher (ainda que o feto dependa 100% do corpo dela pra viver) e a cada dia que passa, a cada notícia que eu leio, eu vejo que minha voz, meu corpo, meus ouvidos, minha liberdade e meu futuro estão em jogo.
Nascer mulher é uma luta diária. Inglória. Um desamparo.
Nossa vida não é sacra, nem digna, nem humana. Não é nossa.
A nós foi nos dado o direito ao silêncio, à passividade, à condescendência.
A nós foi dada apenas uma opção: meu corpo, suas regras.
Agora eu choro de dor. Uma dor incapacitante na alma e no corpo. Por mim, por todas nós. Porque não sei aonde vamos chegar. Choro de medo porque sinto que ganhamos batalhas de um lado e perdemos inúmeras do outro. Criminalizar (ainda mais) o aborto é só o primeiro passo para um feminicídio ainda maior. É um retrocesso sem precedentes. Onde tantos lugares avançam em políticas de amparo à mulher, de equidade de gêneros, de promover meios legais das mulheres abortarem sem perderem suas vidas e apoio psicológico para aquelas que decidem ter os filhos mesmo depois de estupradas (afinal elas são livres para DECIDIR), outros tantos dão vários passos pra trás, criando leis medievais que subjugam o corpo feminino às vontades sádicas do patriarcado e da religião, ignorando completamente que, antes de qualquer feto, qualquer "direito à vida", tem que existir DIGNIDADE HUMANA PARA A MÃE. Esta mulher ESTÁ VIVA E PRECISA que essa vida seja digna.
Eu, Carolina Burgo, estou à beira de um colapso. Sedimentando raiva e revolta por cada coisa que perdi na minha vida e por todas que ainda vou perder só por ser mulher. Nos últimos 2 anos tive momentos em que me abstive de ler notícias trágicas e passei a assistir apenas vídeos de cachorrinhos bebês e ovelhas de pijama, porque deixei de conseguir ser feliz. Tive depressão. Chorei, perdi a vontade de viver, de escrever, de pintar. Porque todos os dias morre uma de nós. Uma de nós é estuprada. Uma de nós, todas nós. Nesses últimos 2 anos mesclei momentos de profunda anestesia com outros de incrível revolta. Briguei, fui grossa, retruquei comentários machistas, desci o nível, fiz inimizades. Em outros momentos calei, adormeci, chorei escondida, fingi que não vi, me abstive de pronunciar minhas opiniões. Me afastei de pessoas que não consideram minhas dores nem as dores do próximo, evitei pessoas com pensamentos machistas perto de mim, gente que defende personagens tóxicos como Bolsonaros e Felicianos, gente que defende a ditadura, gente que defende qualquer pensamento que possa nos privar AINDA MAIS da nossa liberdade, da nossa humanidade.
Debati, me informei, li livros que me mostraram realidades femininas muito diferentes das minhas, aprendi a ser mais empática, entrei em grupos onde mulheres se ajudam a suportar as dores da alma e do corpo umas das outras, porque nós sabemos que as primeiras vítimas de qualquer tipo de opressão, violência e usurpação da liberdade são sempre, sempre, SEMPRE, as mulheres. E hoje vim aqui despejar minha revolta, meu descontentamento, minha profunda infelicidade pelo que está acontecendo no Brasil (e em tantos lugares do mundo), porque não é possível que minha influência só sirva pra falar de looks e viagens. Pelo menos aqui, neste espaço, eu tenho voz.
Eu sei que esse texto vai gerar uma provável onda de ódio, afinal é muito difícil aceitar que uma mulher tenha o direito à liberdade, à dignidade e ao seu próprio corpo. E sei que hoje não é um bom dia para ser mulher, mas também sei que não é um bom dia para ficar calada.