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Nove meses

22 agosto 2018

Nove meses se passaram desde que escrevi o último texto aqui no blog. Daria pra ter nascido um filho nesse tempo. A verdade é que há muito tempo deixei de me sentir feliz escrevendo aqui. Não sei os motivos, já que sempre gostei de escrever e, secretamente, escrevo textos só para mim em cadernos e blocos de notas. 

Não sei se já comentei aqui, mas escrever me consome uma energia estupenda. Não escrevo com o intuito de passar superficialmente por qualquer assunto, escrevo para que, quem lê meus textos, se sinta verdadeiramente envolvido pela narrativa. Produzir textos mais densos demanda uma disponibilidade emocional que eu, confesso, fui perdendo com o passar dos anos. 

Escrever tornou-se cansativo e colocar em palavras meus sentimentos em relação a qualquer coisa, tornou-se um exercício complexo, porque os sentimentos também foram ficando mais complexos e emaranhados. Lembro que quando comecei este blog a linguagem era leve e superficial, focada apenas em descrever as peças do meu look de forma divertida. Com os anos fui lapidando minha escrita para um estilo que eu mesma gostava de ler: algo mais sensível, que captasse as diversas camadas de qualquer assunto. Do look do dia, ao batom, passando pelas viagens, tudo que eu escrevia precisava passar por uma peneira interior, filtrando as sensações, editando as palavras.

Estranhamente essa peneira foi ficando com buracos cada vez maiores e eu não conseguia mais filtrar o que queria escrever em cada post. Eram tantas sensações, tantas nuances, tantas perspectivas, que eu comecei a paralisar diante da tela em branco. Muita coisa pra dizer, pouco tempo pra fazer caber num pequeno post. A objetividade deu lugar a uma necessidade de aprofundamento tão grande, que eu me sentia engolida a cada texto. 

Parei de escrever de repente. Como se não fosse possível mais continuar aquela tarefa. Uma espécie de estafa criativa. Nunca me desfiz do blog, porque algo dentro de mim me diz que escrever sempre vai ser uma válvula de escape, mas abandonei as postagens por não saber mais lidar com a minha necessidade de dizer algo verdadeiro e relevante, nem saber como organizar minhas ideias sem me angustiar pela quantidade delas.

Por muito tempo fiquei com a sensação de que estava "devendo" textos à audiência do blog. As viagens que ficaram incompletas, os looks do dia que deixaram de aparecer por aqui, os drops de fim de semana resumindo tudo que eu vivia aos sábados e domingos. Tanta coisa mudou na minha vida, que eu não sabia nem por onde começar a escrever no blog novamente. Queria manter uma cronologia que estava tão cheia de lacunas, que nem fazia mais sentido. Então resolvi interromper tudo.

Deixei minha cabeça esfriar. Pensei que talvez eu devesse começar de novo, esquecer os posts que estou devendo, sem vontade de escrever, e escrever sobre qualquer coisa, só para não deixar a palavra escrita morrer aqui dentro. 

O blog ficou parado por 9 meses. 
O tempo de ter um filho. 
Hoje nasceu um texto.


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Carolina

Hoje não é um bom dia para ser mulher

09 novembro 2017
Imagem original daqui

E quando eu digo "hoje", esse hoje é todos os dias. Cada vez que eu acordo e abro os olhos. Acordar é uma espécie de nascimento, uma saída de um estado latente para um despertar consciente. Nasci mulher. Todos os dias eu nasço mulher e ao nascer eu tive uma sentença de vida decretada: "você não tem esse direito."

Ontem li esta matéria, o primeiro passo para a criminalização de todo tipo de aborto no Brasil, sob a justificativa de que é preciso garantir o direito à dignidade da vida humana e que essa vida começa na concepção e, portanto, mulheres grávidas de estupradores, mães com risco de vida, mães carregando bebês anencéfalos, poderão ser criminalizadas pelo aborto, pela violação ao direito à vida, caso esta PEC seja aprovada na Câmara. 

Deitei no meu travesseiro e chorei. Não de tristeza, mas de revolta, de raiva, de ódio, de impotência. Chorei por mim e pelas mais de 3,5 bilhões de mulheres no mundo que nasceram com a mesma sentença que eu: "você não tem esse direito". Chorei pela estimativa de que mais de 400 mil mulheres são abusadas no Brasil por ano, mas que apenas 10% dos casos são denunciados à polícia. Chorei por saber que 70% dessas mulheres são, na verdade, meninas e adolescentes e que 89% das mulheres estupradas são pobres, de baixíssima renda e pouquíssima educação. E que 15% desses casos existem dois ou mais abusadores envolvidos e que em 70% dos casos são homens conhecidos ou próximos da vítima. Chorei por saber que 90% das mulheres tem medo de ser estupradas. Que eu tenho medo de ser estuprada.

Você, mulher, não tem direito ao próprio corpo. Você, mulher, não tem direito à dignidade humana. Você, mulher, não tem direito à vida. Mas para nossos deputados, o feto gerado do teu estupro, do teu trauma, tem. Você não tem o direito de decidir se quer ou não prosseguir com a gravidez. Você pode morrer no parto, de uma gravidez aos 12 anos, mas teu feto, que nem nasceu, é mais sagrado que você. Você pode parar seus estudos para cuidar de um filho, enquanto o pai da criança te abandona, porque teu feto merece um futuro, mas você não. Você pode sacrificar sua vida para criar um filho anencéfalo, porque a vida quase vegetativa dele, vale mais do que a sua. Porque você, mulher, não tem direito de escolha. Teu corpo é público, é do homem, da sociedade,  da guerra, do machismo, da religião e de quem mais quiser te violar. 

Diante de mais um golpe aos direitos femininos, eu chorei de raiva por todos os outros direitos que me foram usurpados no exato momento em que eu nasci e pelo único motivo de nascer mulher.

O primeiro deles: a minha voz. Aprendi as primeiras palavras aos 10 meses, precoce. Mas aos poucos percebi que eu não tinha direito a usar minha voz como eu bem entendesse. Não. Dos meus lábios delicados não podiam sair palavrões, nem afrontas ao frágil ego masculino. Não podiam sair respostas ao machismo, nem aos comentários nojentos que eu escutava na rua, porque além do corpo, meus ouvidos também podiam ser violados com xingamentos. Minha voz serviria apenas para proferir palavras boas, sem revolta, domesticadas. E sempre que eu quis me fazer ouvir numa sociedade machista, o mundo me colocava no meu lugar: você é reativa, revoltada, EMOCIONALMENTE IMATURA, mimizenta, feminazi, esquerdopata. Como se minha dor não fosse válida, porque, por lei, ela não é.

Depois eu chorei pelo meu corpo. Esse âmago de pele, osso e músculo que é um prato servido a quem quiser devorar. Um corpo que aos 7 anos recebeu o primeiro assédio sexual vindo de um velho, fato que me emudeceu e me envergonhou e me fez achar que a culpa era minha. Um corpo que só teve coragem de contar pra própria mãe o que aconteceu, quando já tinha 30 anos de idade. Porque a voz, essa voz que eu perdi tão cedo, nunca encontrou forças pra assumir tal violência. Um corpo que ouviu da própria mãe: "quase todas as mulheres da nossa família também já foram abusadas." Dito com uma naturalidade chocante, como se a norma da vida feminina afinal, fosse o abuso.


Depois eu chorei pelos meus ouvidos. Chorei por todas as vezes que um corpo feminino foi julgado pelos homens, pela mídia, pelas próprias mulheres. Todas as vezes que uma mulher foi xingada pelas suas escolhas, tolhida pelas suas vontades, desrespeitada em praça pública ou privada, criminalizada por não querer ou poder ter um filho. Chorei pelo dia que escutei a namorada de um cara dizer que a menina estuprada por 30 homens "procurou" aquilo porque ela andava com bandido. Chorei por cada piada machista que meus ouvidos foram obrigados a ouvir. Chorei de ódio por cada chefe que se aproximou de mim pra me dizer que eu deveria ser mais leve ao confrontar suas ideias machistas. 


Depois eu chorei pela minha liberdade: de ir e vir em paz. De saber que vou sair de casa intacta e voltar intacta. De não (fora) temer que meu corpo seja violado. Chorei porque escolho a roupa que eu posso usar quando estou acompanhada do marido e a que eu posso usar quando estou sozinha. Chorei porque um dia vesti uma saia de oncinha e me chamaram de puta. Coloquei silicone e me chamaram de puta. Fiquei com quem eu queria e me chamaram de puta. Respondi macho escroto na rua e me chamaram de filha da puta. Afinal, mamãe também é do ramo.


Depois eu chorei pelo meu futuro: aquele que nunca chegou. Porque me sentia inteligente e capaz, mas os cargos de chefia quase sempre são dos homens. Porque me dediquei e trabalhei mais que todo mundo, mas enfrentei egos masculinos e nunca recebi uma promoção de cargo na vida, ao contrário, fui demitida. Porque estudei mais, me esforcei mais, batalhei mais, trabalhei mais horas, mas diversas vezes fui chefiada por homens menos preparados que eu. Porque usei a minha voz pra defender o que achava certo e justo e fui calada todas as vezes, afinal, perdi a voz cedo, lembram?

Depois eu chorei por outras mulheres. Aquelas às quais não foram dadas opções de vida a não ser a realidade diária do abuso físico, emocional e psicológico desde a mais tenra idade. Aquelas que nasceram em condições de pobreza extrema, falta de educação e oportunidades. Aquelas para as quais o machismo, o racismo e a misoginia são o prato do dia, self-service, sem balança. Aquelas para as quais a violação do seu corpo é algo NATURAL, pois é a única realidade que conhecem. Aquelas que morrem nas clínicas clandestinas de aborto, porque nosso estado "laico", legislado por homens, impregnado por religiões que representam apenas a si mesmas, e desprovido de mulheres no poder, defende que a vida delas vale menos que a de um feto.

Depois eu chorei pela falta de informação. Aquela que diz que o feminismo não é necessário, porque "eu quero ser dona de casa", sem nem perceber que, o simples fato de você poder "querer" alguma coisa, poder ter essa escolha, já é uma vitória conquistada pelos anos de luta feminista. Chorei por todos aqueles comentários do G1 que falam que o mundo tá chato, que tudo é mimimi e vitimismo, porque parece que bom mesmo, era quando mulher tinha que apanhar calada do marido. Chorei por todas as justificativas religiosas para "defender a vida humana", quando a própria religião mata e estupra tanta gente pelo mundo em nome de qualquer deus, há séculos. E chorei pela dificuldade que as pessoas tem em entender que: se você não quer abortar, não aborte. Mas não obrigue outra mulher a seguir o que VOCÊ acha certo pra VOCÊ. Por fim, chorei por cada homem dando pitaco na vida das mulheres, supondo suas necessidades, regendo nossa vida com pontos de vista criados a partir de seus próprios pênis e simplesmente assistindo ao nosso sofrimento sem fazer NADA, mesmo concordando que talvez a gente até mereça um pouco de dignidade.

Os homens que defendem a criminalização do aborto, são os mesmos que estupram as mulheres, abandonam os filhos e até pagam o aborto quando não querem ser pais. Os homens que defendem a dignidade da vida humana de um feto, são os mesmos que querem ver um bandido morto e não se importam quando uma criança de 9 anos é vítima de bala perdida dentro de uma favela. A bala e a bíblia andam juntas e tem alvos em comum. A vida só tem valor dentro do útero da mulher, ainda que ela seja a alma sacrificada. Fora dela, qualquer criança pode ser abusada, assediada, estuprada, abandonada e morta, afinal, ela já nasceu e isso que importa. A "dádiva" de gerar um filho é, na verdade, uma obrigação. Não é escolha da mulher (ainda que o feto dependa 100% do corpo dela pra viver) e a cada dia que passa, a cada notícia que eu leio, eu vejo que minha voz, meu corpo, meus ouvidos, minha liberdade e meu futuro estão em jogo.

Nascer mulher é uma luta diária. Inglória. Um desamparo.
Nossa vida não é sacra, nem digna, nem humana. Não é nossa.
A nós foi nos dado o direito ao silêncio, à passividade, à condescendência. 
A nós foi dada apenas uma opção: meu corpo, suas regras.

Agora eu choro de dor. Uma dor incapacitante na alma e no corpo. Por mim, por todas nós. Porque não sei aonde vamos chegar. Choro de medo porque sinto que ganhamos batalhas de um lado e perdemos inúmeras do outro. Criminalizar (ainda mais) o aborto é só o primeiro passo para um feminicídio ainda maior. É um retrocesso sem precedentes. Onde tantos lugares avançam em políticas de amparo à mulher, de equidade de gêneros, de promover meios legais das mulheres abortarem sem perderem suas vidas e apoio psicológico para aquelas que decidem ter os filhos mesmo depois de estupradas (afinal elas são livres para DECIDIR), outros tantos dão vários passos pra trás, criando leis medievais que subjugam o corpo feminino às vontades sádicas do patriarcado e da religião, ignorando completamente que, antes de qualquer feto, qualquer "direito à vida", tem que existir DIGNIDADE HUMANA PARA A MÃE. Esta mulher ESTÁ VIVA E PRECISA que essa vida seja digna.


Eu, Carolina Burgo, estou à beira de um colapso. Sedimentando raiva e revolta por cada coisa que perdi na minha vida e por todas que ainda vou perder só por ser mulher. Nos últimos 2 anos tive momentos em que me abstive de ler notícias trágicas e passei a assistir apenas vídeos de cachorrinhos bebês e ovelhas de pijama, porque deixei de conseguir ser feliz. Tive depressão. Chorei, perdi a vontade de viver, de escrever, de pintar. Porque todos os dias morre uma de nós. Uma de nós é estuprada. Uma de nós, todas nós. Nesses últimos 2 anos mesclei momentos de profunda anestesia com outros de incrível revolta. Briguei, fui grossa, retruquei comentários machistas, desci o nível, fiz inimizades. Em outros momentos calei, adormeci, chorei escondida, fingi que não vi, me abstive de pronunciar minhas opiniões. Me afastei de pessoas que não consideram minhas dores nem as dores do próximo, evitei pessoas com pensamentos machistas perto de mim, gente que defende personagens tóxicos como Bolsonaros e Felicianos, gente que defende a ditadura, gente que defende qualquer pensamento que possa nos privar AINDA MAIS da nossa liberdade, da nossa humanidade.

Debati, me informei, li livros que me mostraram realidades femininas muito diferentes das minhas, aprendi a ser mais empática, entrei em grupos onde mulheres se ajudam a suportar as dores da alma e do corpo umas das outras, porque nós sabemos que as primeiras vítimas de qualquer tipo de opressão, violência e usurpação da liberdade são sempre, sempre, SEMPRE, as mulheres. E hoje vim aqui despejar minha revolta, meu descontentamento, minha profunda infelicidade pelo que está acontecendo no Brasil (e em tantos lugares do mundo), porque não é possível que minha influência só sirva pra falar de looks e viagens. Pelo menos aqui, neste espaço, eu tenho voz.

Eu sei que esse texto vai gerar uma provável onda de ódio, afinal é muito difícil aceitar que uma mulher tenha o direito à liberdade, à dignidade e ao seu próprio corpo. E sei que hoje não é um bom dia para ser mulher, mas também sei que não é um bom dia para ficar calada.

Grey hair, don't care!

15 dezembro 2016
Desde que assisti O Diabo Veste Prada, que o filme se tornou um dos meus preferidos na categoria "filmes girly". Não só por tratar do universo da moda e ser claramente inspirado na Anna Wintour, mas porque a figura de Miranda Priestly é tão brilhantemente interpretada por Meryl Streep que, mesmo ela sendo "a megera" da história, você fica cativada pelo poder daquela mulher.


Tudo em Miranda (Meryl) exala esse poder absoluto, essa aura de omnipotência que combina muito bem com o cargo que ela ocupa. Os olhares, as frases, a postura, o tom de voz, a frieza, os looks, tudo isso embalada a personagem como uma figura que tantos temem e muitos outros admiram. É óbvio que seu comportamento é questionável porque beira a crueldade, mas é também muito claro como sua própria vida da Miranda é cruel com ela e que manter a pose (e o poder) tem um preço muito alto a se pagar.

Mas devaneios à parte, uma das coisas que mais me hipnotizou no filme foi o cabelo da Miranda, branco branquíssimo, chiquérrimo e carregado de uma mensagem tão poderosa quanto ela. É que desde sempre as mulheres se sentem pressionadas a pintar o cabelo à medida que os fios vão ficando brancos. Ficar grisalho é algo tão natural para o homem, adicionando até charme, mistério, "maturidade", e beleza aos caras, e pras mulheres é um grande problema começar a ter cabelos prateados pois nossa beleza está exclusivamente associada à juventude. 

Uma vez uma amiga do meu noivo comentou que eu devia pintar meus fios brancos, porque "homem não gosta de cabelo branco, ein!" Depois alguma tia minha reparou nos meus cabelos brancos. E eu vou reproduzir o diálogo pra vocês:

- Carolina, você tem que pintar ein? Tá cheia de cabelo branco!!
- Não vou pintar. Decidi deixar o cabelo natural mesmo.
- Ah você diz isso agora, que ainda dá pra disfarçar. Quando sua cabeça ficar toda branca e você se olhar ao espelho e se sentir uma velha, você vai querer pintar, sim!
- Mas você se sente velha aos 50 e poucos anos?
- Eu não! Me sinto super jovem! 
- Então porquê eu me sentiria velha só por ter o cabelo branco?
- (...)

Aquela "verdade" ficou na minha cabeça até hoje e eu percebi como é difícil pra nós, mulheres envelhecermos fisicamente, porque na sociedade em que vivemos, nossa essência é sempre condicionada ao nosso físico. Também entendi, naquele momento, que o sentimento da velhice é apavorante e que, ao mascararmos a passagem do tempo estamos, de certa forma, tentando desacelerar nossos ponteiros.

Por outro lado esse diálogo me fez ter vontade de abraçar essa finitude da qual todos nós compartilhamos, como algo que pode ser incrivelmente belo, poderoso e principalmente libertador. Hoje minha mãe e minhas tias vivem reféns das tinturas de cabelo, de retocar a raiz a cada 15 dias ou de não sair de casa porque o cabelo não tá pintado. Essa é uma "obrigação" pela qual eu não quero passar e cada dia vejo mais mulheres jovens abrindo mão da "juventude capilar" em troca da liberdade de assumirem seus brancos.

É claro que vou sentir algumas necessidades estéticas (já sinto!!! kkkk), porque tenho minhas vaidades e neuroses (quem nunca?), mas passar o resto da minha vida escondendo cabelo branco não faz parte dos meus planos. Pretendo "administrar" esses traços da idade da melhor forma possível, deixar o cabelo envelhecer naturalmente e cuidar para que ele fique saudável e bonito e acho que isso é suficiente pra mim. 


Quando decidi que não pintaria mais o cabelo, comuniquei ao noivo só para ver a reação dele. Igor é um cara tão simples e prático, que a resposta não poderia ser outra: "ah, que maneiro! você fica linda de qualquer jeito, amor." Sem choque, sem traumas, como deveria ser pra todo mundo. Longe de mim querer submeter minha decisão de ser grisalha ao noivo, mas foi só um teste mesmo e ele passou com louvor. hehehe


Como sei que o cabelo branco é mais poroso, ressecado e tal, rapidamente fui buscar inspirações em mulheres que desfilam seus brancos com muita classe e estilo e percebi que sim, é possível ser jovem por dentro e por fora, mesmo sendo grisalha, que o cabelo pode ser maravilhoso mesmo sendo todo branco e que o mundo precisa entender que a beleza é um conjunto de coisas que transformam a sua percepção e a dos outros, sobre o que é belo. E o belo é simples: é só usar um bom corte de cabelo, um bom jeans e um bom cérebro. 

Ponto de vista

07 outubro 2016
São 7:30 da manhã e eu sempre quis um apartamento com vista. Vista pro mar, vista pro jardim, vista pra serra, vista pra rua. Mas nem sempre a gente consegue o que deseja, não porque a vida seja má, mas porque a balança pende pra um lado e outras prioridades se tornam mais importantes que uma vista para o céu.

Ainda que seja penoso admitir que qualquer coisa nessa vida seja mais importante que olhar para o céu, eu admiti, e admitindo optei por um apartamento com vista para as paredes de outros apartamentos. Pensei: trabalho tanto, mas tanto, que me parece mais importante ter um apartamento  realmente confortável do que o prazer de uma vista.


Sento no sofá, com meu café quentinho entre as mãos, aquecendo os dedos no calor da xícara e olho para fora. Percebo o sol brilhando pelo reflexo forte nas paredes brancas do edifício vizinho. Chega a doer meus olhos. Coloco a cabeça na janela e sinto o ventinho gelado desse inverno atípico no Rio. Olho pra cima e o céu me invade as pupilas pela fresta que sobra entre os prédios. A vida urbana cria molduras de concreto e o azul vira peça de arte para a observação dos mais atentos. Aquele pedaço de céu, só eu vejo, só eu tenho.


Olho pros dois vasinhos de planta que meu namorado cuidadosamente cultiva no parapeito. São plantas pequenas, pouco frondosas, poderia até dizer que são discretas, mas a natureza tem a capacidade de se impor, não importa o seu tamanho. Posiciono minha câmera por baixo da planta para tirar uma foto do meu pedacinho particular de céu azul e as folhinhas invadem meu enquadramento com uma revelação: a perspectiva transforma o pequeno em gigante.


Aquele pensamento desencadeia muitos outros. A miudeza de tantas coisas tem uma imensidão dentro da gente. Penso nos sentimentos miúdos que cultivamos, nas pequenas tristezas, nos atritos bobos, nas frustrações ligeiras, nas caixinhas onde nos apertamos. Penso em como nossos problemas são pequenos vistos do céu, mas enormes quando vistos da perspectiva de cada planta que cultivamos no peito. Pequenos vasinhos que acumulamos, regamos, cuidamos, vasinhos que poderiam decorar quem somos, como um adereço.

Beijos, Carols

A pele que habito

27 abril 2016
Eu vou tentar explicar meu raciocínio usado minha própria experiência como metáfora, afinal o que eu faço neste blog além de relatar uma moda totalmente umbigocêntrica, não é mesmo? É que quando falamos sobre coisas da nossa vivência, conseguimos detalhar com mais propriedade e é assim que pretendo me fazer entender sobre o tema que quero abordar no artigo de hoje.

* * *

Eu não me recordo disso, mas minha mãe até hoje conta como eu fui uma criança absurdamente imaginativa. Segundo mamãe, minha brincadeira preferida era inventar personagens e, para isso, eu trocava de roupa dezenas de vezes ao dia, até minha mãe finalmente dizer "Carolina, chega de trocar de roupa por hoje!". Eram muitas Carolinas de todas as formas e para todos os efeitos. Fui palhaça, bailarina, indiana, hippie, ginasta. Minha roupa preferida era uma fantasia de leopardo que eu nunca tirava do corpo e meu passatempo favorito era invadir um quartinho cheio de tecidos exóticos que minha tia Julie trazia das viagens que fazia ao Equador, Marrocos, Índia. Ou seja, tudo o que eu quis ser, eu realizei na minha infância e não havia limites para a troca de roupas a não ser quando mamãe cansava de me mandar recolher a bagunça que eu criava. Era a fase da criação livre, a materialização do enorme campo de possibilidades que existe na vida de uma criança criada num ambiente de livre expressão, como deveriam ser criadas todas as crianças.

Foto absolutamente macabra: minha prima fantasiada de noiva, uma criança fantasiada de monstro atrás da gente e eu envergando o orgulho de quem nasceu pra ser um leopardo. Era carnaval nesse dia, mas eu usei essa roupa de leopardo em diversas situações fora do carnaval. 
Lá pelos 12 anos entrei numa fase de experimentação fashion, talvez meus primeiros momentos em que fiquei maravilhada por peças diferentes, texturas, misturas e a incrível possibilidade de usar saltos altos. Ia para a escola assim, com toda a sorte de vestimentas chamativas, que meus amiguinhos sempre achavam muito estranhas, mas estranhamente se atraiam por isso. O trânsito entre a infância e a adolescência foi interessante: eu me permitia uma certa fantasia na hora de vestir, mas começava a tomar consciência do impacto das minhas roupas. Essa foi a fase das primeiras construções textuais que fiz através da roupa. Meu texto era, sem dúvidas, muito claro: sou incomum e quero que vocês gostem disso. É claro que nessa época eu não tinha noção do que falo agora, mas analisando em retrospectiva, posso dizer que fui uma pré-adolescente com uma vontade muito grande de me diferenciar dos outros e impor certos traços da minha personalidade para ganhar respeito dos coleguinhas.

Por volta dos 17 anos entrei na era do "quero-ser-igual-a-todo-mundo". É por volta dessa idade que mais sentimos a necessidade de pertencimento, já que a alteração hormonal típica da adolescência nos traz, entre outros sintomas, essa sensação de solidão, abandono e incompreensão que parece que o mundo tem com a gente. Não fui diferente. Não fui uma adolescente "cabeça", bem resolvida. Fui clichê, chorei no quarto, ouvi rock até estourar os tímpanos, pintei o cabelo de vermelho, mas principalmente tentei vestir qualquer coisa que me aproximasse de uma "tribo" da qual eu queria fazer parte. E assim transitei entre ser uma gótica punk, usando coleira de espinhos no pescoço, olhos pretíssimos e roupa esquisita,  até ser uma super patricinha de conversa fútil, usando blusinha pólo e calça justinha. Essa foi a fase da aceitação: eu precisava fazer parte de qualquer grupo, me sentir validada pelos meus pares, ainda que isso pudesse ser uma forma de tolher minha real essência. Com essas roupas eu escondia minha personalidade que, caso exposta, seria pouquíssimo popular: eu era uma nerdzinha, super estudiosa, que achava muito mais legal decorar todas as eras jurássicas e os nomes científicos dos respectivos dinossauros do que ir pra uma baladinha beber. 

Eu aos 17 anos: uma dinossaura travestida de patricinha.
Por volta dos 22 anos voltei a experimentar coisas diferentes. Experimentei as roupas mais estranhas e aprendi com elas. Causei repulsa, atração, estranhamento, chacota e essa fase durou uns bons anos e me acompanhou em vários momentos. Mudei muitas vezes, adaptei meu estilo ao clima, à cidade, a um emprego, a tantas variáveis que quase posso dizer que voltei a ser criança e todos os dias saía de casa com um personagem diferente. Esta foi a fase da confusão: nesta fase eu acumulei dezenas de roupas, dezenas de estilos, multipliquei a quantidade de opções e me perdi inúmeras vezes na tentativa de encontrar um eixo, uma forma de retratar, com veracidade, a minha alma, a minha essência. Eu experimentei tantas Carolinas, cada uma expondo uma coisa diferente de mim, mas nenhuma retratando realmente quem eu era e algumas me causando um profundo desconforto ao qual eu, insistentemente, continuava me submetendo em prol da beleza/aceitação/sei lá.

Agora, aos 30, entrei na fase do conforto. Conforto é a palavra que eu mais tenho usado nos últimos textos e looks do blog e, de tanto proferi-la, acabei por ter uma revelação muito íntima sobre este momento. Aos 30 anos eu consigo perceber cada nuance da minha personalidade de forma muito mais clara. Não é que eu não possa experimentar ou mudar daqui pra frente, mas é que o "barro" vai endurecendo e tomando formas mais nítidas. É óbvio que ter um blog onde relato minhas experiências, de moda e de vida, ajuda muito a fazer uma análise constante das minhas escolhas e motivações, mas chegar aos 30 realmente nos traz uma luz bem forte sobre nós mesmas.


Hoje, aos 30, eu me sinto relativamente confortável com o que sou. Não quero dizer que sou perfeita, ou amo tudo em mim, ou convivo numa boa com meus defeitos, não, muito pelo contrário kkkkkk. O que quero dizer é que estou 100% consciente do que eu sou, da pele que habito, com todos os problemas e benesses que esta pele e alma me trazem. Hoje eu sei que, apesar de ser uma pessoa animada e divertida, minha parcela de extrema introspecção e silêncio devem ser respeitadas, não importa se alguém está me achando muito chata por isso. Hoje eu sei que meu lado extremamente prático, beirando a impaciência, e meu realismo quase cruel, são características que me fazem perder menos tempo com bobagem, sofrer menos por coisas que não posso resolver, ser mais assertiva, mais objetiva, mesmo que me renda poucas amizades.

Hoje, aos 30, minha personalidade impera acima da vontade dos outros, da necessidade de aprovação constante, do medo de rejeição e, por me sentir confortável dentro da minha pele, é natural que minha roupa, meu estilo, meu armário, sigam esse caminho. É natural que eu busque um estilo que traduza essa procura constante por estar confortável em minha própria pele. E acredito que, à medida que vamos ficando cada vez mais velhos, essa necessidade de conforto nas roupas vai aumentando justamente por isso, porque ao aceitarmos quem somos, nossos defeitos e limites, buscamos roupas que não enclausuram nossa essência, nem sufocam nossos movimentos. 

Resumindo: a melhor descoberta dos meus 30 anos é que hoje não sinto necessidade de impressionar ninguém, nem usar roupas que falem coisas sobre mim que nem eu mesma diria. (talvez abriria uma exceção para a roupa de leopardo hehehe). Ainda estou dando os primeiros passos em direção a esse "novo estilo", mas já tem sido um exercício maravilhoso esse de escolher roupas, tecidos, cores, modelagens de acordo com traços muito peculiares da minha personalidade (farei um post especificamente sobre isso). 

Não sei se este vai ser um post útil para vocês, ou sequer se vocês gastam o tempo pensando, analisando e ruminando sobre esse tipo de assunto, mas eu tenho passado realmente muito tempo questionando todo o universo de coisas que me representam como ser humano e claro que o ritual de vestir, sendo um dos universos de expressão mais significativos da minha personalidade, acaba sendo alvo das minhas profundas e constantes reflexões neste blog. 

It's not Forever

22 março 2016

Eu não saberia dizer há quanto tempo exatamente a Forever 21 entrou no Brasil, mas nunca tinha colocado meus pés nessa loja. Aqui no Rio ela fica tão longe da minha casa, que eu nunca cogitei entrar na loucura de ir lá só pra conferir o que a fast fashion estava trazendo para nosso solo tupiniquim. Já me basta a culpa de consumir Zara. Sequer fiquei curiosa com o furor que causou o lançamento da rede por aqui. Mas na última viagem a Recife, passei despretensiosamente na frente da loja e resolvi entrar "só pra dar uma olhadinha".

Em menos de 2 minutos fui acometida por uma tristeza imensa. Um desespero quase. E por um motivo não tão óbvio. Como vocês sabem, eu tenho uma marca de roupas, uma loja online onde vendo as peças que produzo com estampas exclusivas criadas por mim, à mão, com minhas aquarelas e pincéis. Minha mãe é quem modela e corta, temos uma pessoa que costura, nós mesmas empacotamos, cuidamos de tudo. E é tudo tão demorado, tão caro, tão difícil de ver acontecer, que muitas vezes beiramos o desespero. E aí eu entro na Forever 21 e vejo um monte de roupa legal por preços que sequer pagam o valor do tecido de qualquer peça que eu planeje produzir na vida, por mais simples que seja.  

Foi nesse momento que me bateu a tristeza. O tanto que a gente trabalha para conseguir fazer algo que nem sabemos ao menos qual é o propósito. Durante o tempo que estive dentro da loja questionei o que estava fazendo da minha vida. Pra quê eu estava criando, quando tem tanta gente fazendo o mesmo, fazendo mais, fazendo muito? Pra quem eu estava criando, quando tem tantas marcas criando para as mesmas pessoas que eu? Porquê eu estava criando, quando poderia dedicar meu tempo fazendo outras coisas que me fizessem perder menos cabelo?

Me bateu um cansaço. Uma vontade louca de parar de remar contra a maré. Eu literalmente quis sentar e chorar ali, no chão da loja. O vestido lindo da Forever 21 já pronto, com corte, costura, pano, modelagem, custa menos do que o preço só do tecido que eu gastaria na Prosa para produzir o mesmo modelo. A cada minuto dentro da loja minha cabeça era dominada apenas por uma frase: "o que é que eu estou fazendo da minha vida?" 

A sensação era de não estar fazendo nada. Na "geração da relevância", quando nos sentimos irrelevantes diante de alguma coisa é como sentir um golpe no estômago e, naquele momento, olhando para a quantidade gigantesca de peças que eu achei realmente lindas, que eu de certa forma "invejei", me senti irrelevante, minúscula, soterrada pela minha incapacidade de competir com a dimensão daquela loja, com a dimensão de um mundo de gente cujo negócio é vestir pessoas. 

Ali coloquei em cheque todos os meus desejos, tentei entender porquê comecei a fazer roupa, o que deu na minha cabeça de trabalhar com um mercado tão difícil, pra quê eu fui seguir esse caminho. Me senti traindo meu próprio trabalho quando segurei nos braços várias peças para experimentar. Me senti doída com tudo aquilo, triste por saber que eu vendo roupa e não consigo ganhar $$ suficiente pra comprar roupas autorais de outras pessoas, não porque sejam caríssimas, mas porque não sobra grana mesmo. Um ultraje ao meu próprio esforço.

Saí da loja com 3 peças baratíssimas. Ridiculamente baratas. Impossivelmente baratas. Saí arrasada por todos os motivos. Por não controlar meu desejo, por colaborar com um sistema de produção imundo, por só ter dinheiro "praquilo", por gastar meu único dinheiro com "aquilo" e por ainda conseguir me sentir linda com aquilo. Culpa, culpa, culpa, culpa. Uma espécie de sentimento que brota no peito de quem é refém do que lhe faz mal. Por muitos dias fiquei remoendo aquela sensação no peito. Por semanas fiquei engasgada com várias questões. Não tive a resposta para elas na hora. 

Até que dia desses abri minha caixa de email e uma cliente mandou uma mensagem muito sensível falando sobre como uma única peça da Prosa fez com que várias pessoas a elogiassem e ela estava realmente precisando de uma injeção de autoestima, pois não estava num momento bom. Me agradeceu por isso, por ter feito essa pequena transformação no armário e na vida dela.

E foi aí que eu encontrei a resposta. Eu não crio porque sou apaixonada por moda, nem crio porque minha ambição é ser famosa, nem crio porque estou ganhando rios de dinheiro com isso (porque não estou). Eu crio porque eu entendo que vestir é uma forma de arte que transforma a gente, que tem o poder de mudar a imagem que temos sobre nós mesmas. Eu crio porque acredito que roupa não deve ser fútil e sim uma ferramenta para nos sentirmos felizes SEMPRE. Crio porque sei como eu fico feliz em ser abraçada por determinadas roupas e sei que a Prosa tem essa missão de abraçar mulheres e fazê-las se sentirem especiais. Crio porque sou livre para colocar na minha marca todos os meus sonhos e as melhores lembranças da minha vida e poder oferecer um pedacinho disso às pessoas me faz bem.

Ainda que eu continue angustiada com tantas questões, com os preços, com as demoras, com as burocracias, ainda que eu sinta meu trabalho de formiguinha sendo esmagado diante da quantidade de opções e preços que as lojas de departamento oferecem, ainda que eu pense em desistir diariamente, ainda que eu continue comprando em lojas de departamento que oferecem roupa descartável que cabe no meu bolso, pelo menos agora eu encontrei um propósito que não existe em nenhuma loja dessas, por mais bacana que seja: essa preocupação de que tudo o que está ali à venda é fruto de muito afeto.

E é só por ter encontrado esse mínimo valor para o meu trabalho que eu continuo criando.

Crônica de provador: Chapéu de Blogueira

16 janeiro 2016
"Tem uma menina ali com chapéu de blogueira, você viu?" Foi dessa observação que nasceu este post. Em pleno pagode (à noite) numa galeteria da Tijuca, uma moça usava um chapéu de blogueira. Não fosse o fato de ser de noite, numa galeteria, escutando pagode e vestindo body de oncinha com short jeans, o chapéu teria total pertinência já que, mais do que um acessório de moda, ele é um indicador de estado de espírito de um ser humano. Mas como assim? Passo a explicar.

Você talvez não saiba, mas existe um chapéu de blogueira. Uma peça muito utilizada nos mais diversos perfis dedicados ao estilo diário de mulheres mundo a fora. O chapéu não é qualquer um. É floppy, maleável, de feltro, que te deixa com cara de parisiense-hippie-pobre-s0vaco-cabeludo-cujos-pais-tem-muito-dinheiro-e-portanto-você-é-rica. E, claro, você é limpinha, tomada banho e maquiada. O cabelo no sovaco é ironia. O chapéu de blogueira é a materialização do espírito Janis Joplin de curtir a vida com muita intensidade, good vibes, paz&amor nos dedinhos e dinheiro no bolso, que você não demonstra que tem, mas tem e se não tiver parece que tem, mesmo que o chapéu custe apenas 8 dólares do Aliexpress.  O chapéu de blogueira não é só um acessório de moda amplamente democratizado nas redes sociais, é também um statement de algumas características psicológicas que definem o joi-de-vivre de quem o veste: muita felicidade, muita #gratidão e um punhado de olhar misterioso que se desvela sob as abas flexíveis do feltro e para bem ali, diante das câmeras.

O chapéu de blogueira pode vir em diversas cores: nudes e caramelos estão na preferência das bloggers mais felizes, praianas, musas do biquini com shortinho; vinho e preto (comprei um de cada) estão no top 10 das blogueiras góticas-suave, que amam uma foto p&b e desfilam suas cabeças intelectuais por museus com arte de qualidade duvidosa, usando saia longa e top cropped. Nenhuma é infeliz dentro de um floppy hat, mesmo morando no Brasil, onde é praticamente impossível ser feliz com o cérebro assando dentro de um chapéu de feltro. A infelicidade não tem vez, aqui, não com um floppy hatFloppy hat é a guloseima da moda. A última jujuba no pacote. O must-dress do seu look do dia. Além de ser ótimo para esconder uma raiz sem retoque do cabelo, ou disfarçar seu olhar cansado, ou pagar de misteriosa nas redes, este chapéu também exala uma aura de alegria que transforma nosso olhar diante
das câmerasdo mundo, ainda que nossos olhos estejam cobertos pelas tais abas maleáveis. E por toda essa magnificência, eu, como blogueira, achei que devia usá-lo hoje por que perdi meu guarda-chuva, está chovendo fino e eu encontrei uma nova função para essas tremendas abas.



Vestido: Marina Morena | Cardigan: Zara (acho que foi R$ 99 | Bolsa: C&A, R$ 99 | Botas: Stradivarius, presente da irmã | Chapéu: eBay, uns 8 dólares kkkk

Sobre idas e voltas

31 dezembro 2015

No meu minúsculo universo de um punhado de amigas, um enorme universo de transformações. Amores que acabaram, projetos que minguaram, notícias inesperadas, pessoas que se foram, pessoas que ainda nem chegaram, inúmeras frustrações e, provavelmente, mais lágrimas que risadas. Mais desesperos que preparos. Mais planos ruídos que sonhos realizados. 2015 foi um dos anos mais estranhos da minha vida. Da vida de todas nós. Tudo o que planejamos foi cercado de entraves e problemas aparentemente sem solução. Uma batalha entre todos os conflitos externos que assistimos e os internos que não resolvemos. Nem a chegada de um amor fez meu 2015 ser menos estranho. Fechamos o ano com aquela angústia de quem não cumpriu nenhuma promessa do reveillon passado, de quem não viu todos seus sonhos se concretizando em míseros 365 dias. Mas é tão pouco tempo, pensamos. E passa tão rápido, pensamos. E ainda assim parece que 2015 se arrastou por décadas e aquela esperança de ano novo que invade nosso coração, demorou pra chegar. "Alguém me tira deste filme, por favor?" Eu penso. E aí acabou o ano. Um alívio.

Planejamos a festa de reveillon, o que vestir, a cor da calcinha, o tom do esmalte, como vamos chegar lá, quem vai dividir o táxi, montamos um grupo no whatsapp para debater a logística de idas e vindas, afinal o Rio é um inferno no Reveillon. Descobrimos que não teremos como voltar da festa. Que não teremos um táxi pra nos devolver pra casa, nem uma van, nem ninguém. E aí sou atingida pela verdade que vai guiar meu 2016: deixa a vida resolver. Se quiser ir, vá. Seja qual for o caminho. Se não souber como voltar, espera. A volta só existe para quem se atreveu a ir. Aguarda o sol nascer, aproveita a companhia de uns amigos loucos que vão dar risada junto com você. Se embriaga até perder os sentidos e chora todas as mágoas do ano que passou. Ou ri, porque bom humor é fundamental. Começa o ano abraçada pelas pessoas que ousaram seguir um caminho parecido com o seu, mesmo sem saber como voltar pra casa. A certeza é um prato cheio de fórmulas repetidas, cansativas, sem graça. Bom mesmo é caminhar sem mapas. Arrisca. Aquele clichê do "o que importa é a viagem, não o destino" é a tendência pra 2016. Ponha em prática.

Desapega do manual de navegação. Usa o coração como bússola. A resiliência como força. As palavras boas como lei. Com 2015 você provavelmente aprendeu que um barco furado só afunda se você não tiver mais fôlego pra remar. Mantenha o ritmo e se não tiver resistência, exercite. A perseverança é um músculo como qualquer outro e precisa de treino. "Ah, mas não tenho remos." Então nade. "Ah, mas não sei nadar." Peça ajuda. O orgulho é feito chumbo e afunda a gente.

Tire o tempo que for necessário para perceber se é preciso desistir ou continuar. Desistir não é demérito, você não precisa vencer todas as batalhas. Continuar não é necessariamente uma vitória, pode ser um desgaste. Use sua força para o que te faz bem de verdade. Respira, fecha os olhos se acalma sobre as ondas. Deixa a vida resolver pra onde quer te levar e abraça esse imenso horizonte sem medo. Talvez você nem precise saber como voltar, apenas como continuar seguindo.

Feliz 2016.



Uma carta para Carolina

03 dezembro 2015
Quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Carolina, vou te chamar assim, que é como tua família te chama. Prometi que te escreveria uma carta pelos teus 30 anos - nossa, como o tempo passou rápido! - e aqui está ela, um pouco fora de hora. Devo avisar que não é uma carta sobre suas conquistas, não é uma retrospectiva dos teus maiores feitos, mas um ensaio íntimo sobre quem você realmente é hoje, aos 30 anos. E por isso te chamo de Carolina. Carol é aquela outra moça todo mundo conhece - mas não conhece - , Carolina só quem conhece sou eu, ou seja, você e é para ela que estou escrevendo hoje. Desculpa o atraso.

30 anos atrás você - no caso, eu - nasceu e seus pais nem sabiam que teriam uma menina. Escolheram o nome Carolina. E daí pra frente escolheram tantas outras coisas, mas muitas outras foi você - no caso, eu - quem escolheu.

Hoje, aos 30 anos, você não é nem de perto a mulher que esperava ser. Aos 30 anos você achava que teria sua casa própria, com um quintal e um cachorro. Que teria um emprego fixo e talvez fosse uma promissora diretora de arte, quiçá uma diretora de criação. Que estaria casada e, vejam só, no segundo filho, por que você sempre quis ser mãe cedo. Aos 30 anos você pensou que já seria adulta o suficiente para não ter inseguranças, que saberia tomar decisões sábias, que nunca mais acordaria com aqueles pesadelos infantis que te faziam amanhecer chorando. Você sonhava que, aos 30 anos, a vida estaria estável, pacata, encaminhada, com dinheiro na poupança, saúde de ferro e um bumbum bem durinho pelo hábito saudável de praticar exercícios, que você pensava que ia adquirir antes do 30 anos.

Hoje, aos 30 anos, você não é nada disso. Ouso dizer que você é o extremo oposto. Você vive de aluguel num apartamento que odeia e não tem quintal nem cachorro. Você largou seu emprego fixo e sua carreira de "promissora" diretora de arte e desistiu do sonho de ser uma diretora de criação, por que simplesmente tanta gente menos competente passou por cima de você, só por que você não é homem, nem tem cabelos brancos. E aí cansou, né? Você aprendeu que talento não é suficiente. Você não está casada e o primeiro filho não vai vir tão cedo. Todos os dias você se olha no espelho e se sente insegura. Uma menina que adquiriu rugas. Algumas vezes você chora.

Diariamente você faz escolhas terríveis - e se culpa - como comprar aquele sapato que você nunca usa com um dinheiro que você não tem e cada dia que passa você é mais consciente dos próprios defeitos que agora se acumulam não só na alma como na barriga, na bunda, nos peitos. Até hoje você acorda chorando com seus pesadelos e não tem nada que te cure, nem o abraço carinhoso do seu amor. Aos 30 você é ferida pura, zero saúde. Não tem joelho que preste, pernas que te sustentem e você adquiriu o péssimo hábito de comer porcaria pra ser feliz. O bumbum não está durinho. Seus olhos começam a acumular vincos e seu  semblante vive num eterno cansaço. E você já tem 30 anos. Mas você só tem 30 anos. É um duelo.

Hoje, aos 30 anos, você acertou no amor, acertou bem, mas sente que perdeu no jogo. Ainda que suas conquistas pareçam imensas para os outros, para você existe um grande vazio que nem você compreende. É fato que você perdeu o que era vital e te trouxe até aqui: os sonhos! E hoje muita coisa que você dava valor, te incomoda. Aos 30 anos você não tem mais AQUELE sonho de vida pra perseguir, por que você nem sabe direito o que quer, sua existência virou de cabeça pra baixo de um jeito que você não sabe como colocar de volta ao prumo e esses pratos todos estão aí, sendo equilibrados ao mesmo tempo, afinal você é libriana e essa deveria ser sua especialidade. Você não sabe se é a idade cabalística, o alinhamento estranho dos planetas ou um leve desnortear que precede a escolha de um próximo caminho triunfante. Você está perdida e a vida não te oferece mapas, no máximo, pistas e você nunca teve muita paciência para charadas, convenhamos. Carolina, sem querer fazer muita poesia, você está fodida. 

Mas hoje, aos 30 anos, você tem algo que exercício de bunda nenhum te daria: solidez de alma. Essa é a palavra da sua vida agora. Você é sólida, inteira. Você nunca foi tão fiel a si mesma, às suas vontades, às suas teimosias, às suas dores, às suas fraquezas, quanto agora. Você nunca foi tão assertiva, tão imperativa, tão independente, tão franca, tão frágil. Até quando seus movimentos titubeiam - e isso acontece com muita frequência - , você se segura, se recompõe, constantemente reúne seus caquinhos e segue sorrindo, por que é pra isso que temos dentes e sua mãe te ensinou a rir da própria desgraça. Cada minuto da sua vida é você quem escolhe o que vai plantar e é você quem colhe todos os frutos - os verdes, os podres e os maduros. Todos os dias você acorda com o único objetivo de superar sua própria inércia e provar sua determinação, ainda que você continue sem ir pra academia como você prometeu que faria. 

Você abriu mão do conforto dos sonhos planejados pelo confronto de não saber para onde ir, mas continua indo, indo, indo. Mais do que brigar com o mundo, você brigou consigo mesma, com suas estruturas, com sua acomodação, com seu despreparo, você colocou em risco sua autoconfiança e fez ruir boa parte dessa fortaleza, mas construiu uma casca ainda mais dura. Você briga todos os dias com seu desânimo e todos os dias você acredita que o dia seguinte pode ser melhor, que a semana que vem vai ser mais incrível, que ano que vem vai ser o ano da sua vida, mesmo que você acabe o dia com a alma desgastada, perdida, pedindo colo.

Você leva seus dias assim, tateado o passo seguinte, farejando a próxima direção. Você chegou ao ponto de sequer conseguir decidir o que vai comer, por que comer não parece ser tão importante diante da enorme urgência universal que é de encontrar o eixo de si mesma. E, embora o quadro pareça patológico e desesperador, embora você sinta que sua alma está em fragalhos, cheia de remendos e novos buracos, você está mais do que viva e costura, pacientemente, sua próxima Carolina. 

A roupa amassada

24 novembro 2015

Eu saio de casa com a roupa amassada. Não sempre, mas muitas vezes. Uns podem chamar de desleixo, eu prefiro chamar de inaptidão crônica para as desimportâncias humanas. Não é que eu não me incomode com coisas mudandas - me incomo sim, e muito, com as mais diversas coisas sem importância alguma - mas é que não sou uma perfeccionista, então não são os meros detalhes que me incomodam. É o todo de qualquer coisa.

Não me incomodo com toalha molhada em cima da cama, nem com a tampa do vaso levantada, muito menos com a pasta de dentes amassada bem no meio. Me incomodo com a miséria do mundo, a crueldade da humanidade e o péssimo sinal de wifi da NET, e aí todo o resto parece bem pequeno. Por isso também não me incomodo com roupa amassada. Não precisa ser um maracujá, convenhamos, mas os vincos naturais de uma secagem ao ar livre não me incomodam.

Sair de casa amassada é um statement! - e eu inventei essa teoria agora. Sair amassada é um ato de rebeldia contra todas as normativas sociais da vida adulta. Contra toda essa ideia enrijecida de retidão a que somos subjugados diariamente. É apenas uma roupa amassada - olha que metáfora! - mas ela traduz perfeitamente o que se espera de todos os seres humanos: que não tenhamos vincos, nem dobras, nem pregas, nem defeitos. Que mesmo depois de sermos sacudidos pelas intempéries de uma máquina de lavar, tenhamos a sobriedade de passar a limpo nossas marcas, para que ninguém se incomode com nossas cicatrizes.

Se visto uma roupa amassada é por que tenho urgência da vida. Por que meus minutos são preciosos e não posso gastá-los passando camisas a ferro. E se a blusa amassada é sinal de desleixo, deixa eu jogar a real: acordei desleixada mesmo e ela traduz muito bem meu humor do dia por que hoje acordei machucada igual à minha roupa. Quem nunca acordou assim? Se sentindo atropelada pelo cansaço e pelas obrigações? Todo mundo.

Sair de casa com a roupa amassada é quase um atestado de independência feminina, um ato de não-mais-engomarei-minhas-roupas, pois lugar de mulher não é na tábua de passar, é na rua, no cinema, na livraria, na exposição de arte, toda amassada se ela quiser. Sair de roupa amassada é também a possibilidade de escrever uma pequena crônica sem sentido, poético-revolucionária, que justifica o porquê de uma camisa toda amarrotada numa única frase de caminhoneiro: não passo roupa por que a vida passa e a roupa passada fica.


Mudando o jogo

03 novembro 2015
Eu tenho este blog há 5 anos. Antes dele tive outros blogs, de textos, de ilustrações, de inspirações. Mas este é o "projeto" no qual estou engajada há mais tempo e em todo esse tempo a pergunta que mais me fizeram foi: "como é que você ainda não ficou rica e famosa com suas redes sociais? Tá esperando o quê????" Leiam isto com um certo tom de indignação por parte do interlocutor da pergunta, por que o sentimento é quase esse. Falam como se eu estivesse perdendo a chance da minha vida, como se eu fosse dona de um potencial gigantesco e fosse cega por não enxergar a oportunidade que é ser uma "blogueira famosa" e simplesmente não enxergam o tamanho da dependência que isso pode causar.

Todas as vezes que escutei essa pergunta, respondi da mesma forma: o blog não é um fim, é um meio. Não é com o blog que eu vou ganhar meu dinheiro, mas divulgar meu trabalho fora dele. Com o blog eu tive a oportunidade de vir para o Rio, escrever roteiros para uma marca feminina que falava de moda e trabalhar numa das maiores agências do país, por que precisavam de alguém com esse perfil de linguagem. Com minhas redes sociais eu pude migrar da função de ser uma diretora de arte offline (que faz cartaz, outdoor, etc) para ser uma criativa digital, por que eu entendo como funciona esse ambiente. Com minhas ilustrações postadas no instagram eu pude fazer minha primeira coleção de estampas para uma marca de biquinis. E com essas mesmas ferramentas eu hoje divulgo tudo o que crio para a Prosa. Eu sou dependente das minhas redes para divulgar meu trabalho, mas não precisaria dessas redes para hoje, conseguir trabalho numa agência. Eu continuo tendo uma profissão que me dá sustento independente de eu postar fotos minhas no instagram ou não.

Mas esse foi o caminho que eu escolhi. É óbvio que ganhar dinheiro com o blog/instagram é maravilhoso e é sim uma oportunidade de ganhar um extra, principalmente no meu caso, que sou uma empreendedora em começo de carreira e o dinheiro não sobra. Mas o outro lado da moeda é feio e duro. Vou explicar:

Há tempos observo o comportamento dos perfis que fazem sucesso repentino no instagram. Observo por que tento compreender por quê o meu não faz tanto sucesso assim, vejam só. Eu me dei ao trabalho de me incomodar com algo tão irrelevante quanto isso por que até achava meu conteúdo interessantinho e tal e sim, me comparei a outras pessoas, por que sou humana. Mas cheguei a uma conclusão: meu perfil/personalidade/estilo não é tão comercial. E ponto. E assim parei de sofrer, por que no fundo não quero mudar essa essência. Mas a verdade é que quanto mais pessoas me seguirem, mais pessoas vão ver meu trabalho na Prosa e isso é o que realmente me interessa pra mim.

Contudo, o que eu observo é que os perfis que mais fazem sucesso são aqueles que não trazem nada além da exploração excessiva da imagem da pessoa. Perfis construídos com selfies, looks, frases de efeito, idas ao salão. É isso que "as pessoas curtem", dizem. E realmente não tem nada de mais nisso, mas em algum ponto isso é uma espécie de epidemia coletiva. Por isso, a título de curiosidade mesmo, comecei fiscalizar quantos likes recebe uma foto minha e quantos likes recebe uma obra de arte que eu curti em alguma exposição e eu nem preciso dizer quem ganha essa batalha, né? A selfie, claro. Mas a partir do momento em que uma ~web celebridade~ toma consciência dessa (ir)realidade, ela transforma toda a sua existência em algo "publicável" e até pra ir na padaria da esquina, ela não esquecerá de usar uma make poderosa e manter os cabelos impecáveis. E digo isto por que já me incomodei de ser "reconhecida" na rua e estar descabelada e de chinelo, como se minha imagem completamente NORMAL fosse algo absurdo. Quando a pessoa começa a ganhar dinheiro com isso, o caso fica ainda mais grave. Ela se torna uma vitrine virtual de marcas, poses e um estilo de vida que, em raríssimas exceções, correspondem à realidade daquele ser humano que acorda com olheiras e bafo como todo mundo.

O que acontece é que criamos uma realidade que agrada aos outros e depois ficamos reféns dessa realidade, nos sentindo eternamente obrigadas a reproduzir aquele mundo fantástico dentro das nossas redes. E isso é o universo de um ser humano famoso ou não. Agora imaginem a proporção desse problema refletido numa geração inteira? E aí eu compreendo quando dizem que ser blogueira/personalidade digital/whatever é um trabalho, por que é mesmo. Dá mesmo muito trabalho sermos constantemente sequestradas da nossa vida comum pelo simples fato de termos criado um perfil que "inspira" tantas pessoas. Até as blogueiras da "vida real" como eu, tem sua parcela imensa de irrealidade, por que no fundo, como minha própria mãe diz:



 "Carolina, ninguém quer ver sua realidade nua e crua por que isso é o que todos nós vivemos. As pessoas querem ver o sonho que ameniza e nos distrai das mazelas das nossas próprias vidas." Mamãe sempre sabe das coisas.


 Imaginem um instagram de legendas reais.


Vejo cada dia mais meninas abandonando suas profissões para viver das suas redes sociais. Vivem da sua imagem, da sua beleza, do seu sorriso. E até aí tudo bem. Mas a velhice chega para todos, as rugas surgem, as celulites também, e me pergunto o que farão depois que a juventude passar. Se hoje Iris Apfel é modelo aos 94 anos, é por que ela construiu algo maior que a beleza que nunca teve. Se tudo o que você faz é pautado pela própria imagem, o que você será depois que essa imagem não existir mais? Será que elas pensam nisso? Será que pensam como farão essa transição? Ou pretendem viver para sempre tirando fotos "inspiradoras" com símbolo de paz e amor nos dedos, enquanto travam uma guerra interior? Não seria essa uma caricatura triste de um vazio muito grande que ainda está por vir? A conta vem a galope.

Pergunto tudo isso por que eu mesma sinto esse vazio em alguns momentos e olha que eu nem sou famosa. Sinto angústia quando não tenho nenhuma foto legal pra postar no meu instagram ou quando o dia está chuvoso e a paisagem não colabora para os meus clicks. Ou pior, quando não tenho uma foto que vai gerar likes. Isso sem contar em quantas vezes perdi as contas de quantas vezes me senti culpada por passar 3 horas no instagram bisbilhotando a vida das pessoas enquanto eu poderia estar lendo um livro. Ou imaginando como será lindo quando eu tiver filhos e postar fotos deles. E os filhos ainda nem nasceram, gente. Isso é doentio e muito sério. Tão sério que transformou a vida de Essena Oneil, blogueira australiana que cometeu recentemente o que eu chamo de suicídio digital.

Essena tem mais de meio milhão de seguidores no instagram e consquistou esse número marcante à custa da sua própria vida. Ela não morreu fisicamente, mas no sentido figurado. Perdeu-se de si, das coisas e pessoas que amava, e virou um fantoche lucrativo da realidade ilusória que criou para si mesma por que, um dia, ela achou que aquilo era um sonho, mas não foi.

Quando li esta matéria sobre Essena, eu entendi perfeitamente o que ela fez. Algo que já passou pela minha cabeça inúmeras vezes e eu nem tenho 500k no instagram. Essena apagou seus vídeos mais assistidos do youtube, apagou seu tumblr e excluiu cerca de 2 mil fotos no instagram. Nas fotos que sobraram, ela editou todas as legendas para mostrar a REALIDADE por trás daquelas imagens e o resultado foi chocante. Essena ganhou muito dinheiro com suas redes sociais, mas perdeu a conexão consigo mesma. Esqueceu que amava artes plásticas e virou uma modelo de instagram, fotografando biquinis para marcas diversas. Esqueceu suas relações familiares e, inclusive, brigava com sua irmã para que ela tirasse melhores fotos. Esqueceu o prazer de fazer um passeio sem compromisso e transformou cada momento e cada paisagem em ensaios fotográficos extenuantes, só para ter conteúdo para postar em suas redes sociais. Criou uma realidade que só fazia sentido no instagram, por que fora dela, era esvaziada de sentido. E quantas pessoas fazem isso? Milhões, inclusive eu. E justamente por isso eu já me questionei centenas de vezes sobre o que fazemos diariamente com nossas vidas online. Eu, que sempre fui sincera e sempre apreciei a verdade, doa a quem doer, me vi doída com o relato de Essena.

Me vi doída cada vez que eu deixei de postar algo que eu achava incrível, simplesmente por que "as pessoas não vão curtir". Quão doente é sentir isso? Em maior ou menor escala, o fato é que estamos reféns das nossas redes sociais a tal ponto que não sentimos que vivemos algo se simplesmente não compartilharmos essa vivência com o maior número de pessoas possível, na maior quantidade possível de redes. A nossa dependência psicológica da aceitação via likes é tão grande que tudo o que compramos ou ganhamos precisa ser divulgado. O que comemos precisa ser compartilhado. Até o cachorro e o gato que temos precisam também ser celebridades de instagram, com perfis, poses e fantasias, e nós nem sabemos mais qual é a função de cada esfera da nossa vida, a não ser servir como mais um cenário idílico da novela que criamos para mostrar para os outros. Presenciamos a era do Eu-Ostentação. O caso é tão sério que, dia desses, me perguntaram se eu estava solteira novamente, simplesmente por que nunca mais postei fotos do boy no meu instagram e eu fiquei verdadeiramente chocada. É como se a existência das coisas da minha vida dependesse exclusivamente da exposição delas nas minhas redes sociais.

Eu sempre dei muito valor à minha liberdade (artística, física e intelectual) e sempre tive sérios problemas em assumir compromissos dos quais eu não poderia desistir. Mas a partir do momento que você "cria" esse universo paralelo você fica, de certa forma, enclausurada nele, comprometida a levar adiante algo que nem sempre te faz feliz e por um simples motivo: as pessoas esperam aquilo de você e pior, elas te cobram por algo que recebem de graça, mas que para você tem um custo. Isso acontece em qualquer profissão e com qualquer pessoa, mas quando o motivo da infelicidade somos nós mesmos, o buraco é mais embaixo. E se já é difícil atender às expectativas que nossos amigos e famílias exigem de nós, imagina fazer isso para milhares de seguidores? Uma vez que você "entra nesse jogo" é imperativo que você saia dele vencedor ou as pessoas simplesmente não vão entender COMO você ainda não ficou rica e famosa, por que simplesmente ninguém trabalha com a opção mais sensata que é você querer preservar apenas o que te faz feliz.

Hoje, mais do que nunca, eu sei que meu blog não é meu futuro e sim uma ferramenta para meus projetos, mas se for para eu enriquecer, que seja de uma vida cheia dos meus sonhos, das exposições que eu vou, das coisas que eu crio, dos livros que eu leio, do trabalho que eu faço, das pessoas que eu amo, dos destinos que eu visito e das palavras que eu gosto de escrever aqui para vocês. O blog não pode ser maior que eu. Meu instagram não pode ser maior que minha vida real e que minha imagem não pode ser maior que meu intelecto, nunca, jamais, sob hipótese ou dinheiro algum. E esse é um mantra que tento repetir para mim mesma cada vez que me sinto "invalidada" por não ter nada "interessante" para expor. Por enquanto, eu e tantas mulheres, ainda sofremos as angústias de uma geração que vive de likes, mas tenho fé que a necessidade de uma realidade verdadeira vai chegar para todas nós. Já está chegando. No momento, me pergunto quantas meninas já chegaram a essa conclusão e espero que consigam entender que, daqui a 50 anos, nossos cérebros vão valer mais que nossas peles perfeitas e cabelos impecavelmente ondulados e que é preciso mudar o jogo para construirmos algo mais consistente que fotos bonitas para o instagram. 


Mais devagar

19 setembro 2015
Sexta, 21h, recebo um email do meu contador. E um sms avisando para checar o email. E 2 minutos depois umas 3 ligações (que não atendi) para avisar que mandou email. E mais uma mensagem de whatsapp pra confirmar que estou viva mesmo. Este é só um exemplo de muitos que vivo diariamente. Todos os dias família e amigos mandam email e mensagem no fb e sms e whatsapp e instagram, tudo para garantir que eu receba a mensagem, seja ela qual for, me podando o direito de não querer/poder responder. E de tanto não querer/poder responder, eu cogitei excluir para todo sempre minhas redes sociais, para ver qual seria a forma das pessoas chegarem até mim.

Mas numa terra bem distante, num tempo que não volta mais, eu escrevia cartas, enviava para o outro lado do mundo, esperava três semanas para a pessoa receber e o tempo que ela achasse necessário para responder de volta. E aí esperava mais um pouco a resposta, a chegada pelos correios para, enfim, saborear aquelas palavras escritas com tanto cuidado. Esse tempo tem uns 15 anos e eu e mamãe trocávamos cartas quando eu vinha para o Brasil.



Encontrei uma pasta cheia dessas palavras que, com tanta paciência, foram escritas à mão. Hoje parece relíquia, memória física de um comportamento que não existe mais, por que ninguém consegue esperar por nada (nem eu mesma), imagina por uma carta. O que a tecnologia trouxe de bom (agilidade/informação), trouxe igualmente de ruim (impaciência/ansiedade). Curioso saber que antigamente um layout publicitário demorava semanas para ser feito e os clientes sabiam esperar por ele. Hoje ninguém espera, porque o mundo tem pressa e as agências sugam seus funcionários como se criação fosse uma maratona a ser vencida. Uma marca de moda não pode mais lançar apenas uma coleção de inverno e outra de verão, tem que lançar 16 minicoleções por ano, porque o mundo tem fome de novidades todas as semanas e as pessoas perderam a capacidade de apreciar, por isso é preciso criar coisas novas o tempo inteiro e detonar toda a cadeia de produção. Uma criança não pode mais esperar pelo brinquedo do Natal, porque precisa de um novo jogo toda semana. Um adulto não pode esperar o filme chegar aos cinemas, porque precisa baixar antes e assistir e comentar no facebook.

E essa loucura se apodera de todas as relações da nossa vida: profissionais, amorosas e entre amigos. Perdemos o direito de ficar no nosso canto. Perdemos o direito de ter preguiça de responder. Perdemos o direito ao silêncio. Somos diariamente invadidos por todos os meios de comunicação e parece que se não entramos nesse universo, estamos perdendo algo inestimável. E estamos mesmo, mas é a nossa vida somente que perdemos.

Eu não sei vocês, mas eu estou meio cansada disso tudo. Podem chamar de retorno de Saturno, ou apocalipse dos 30 anos, não sei. Só sei que estou bem tentada a fugir para as montanhas e largar essa época estranha em que vivemos. A época do frenesi, da euforia, dos transtornos de ansiedade, do queremos tudo hoje, agora, neste instante. Com tantos pontos de contato com o mundo, ao invés de ampliarmos nossa percepção, vivemos na era da subsensibilidade, onde não compreendemos, não usufruímos, não amadurecemos, não saboreamos as melhores coisas da vida sem ser através de uma tela, apenas consumimos e devoramos com um fastio grotesco o que nem cabe mais em nossos estômagos. Somos diariamente tomados por uma congestão dos sentidos, por não termos o tempo e a tranquilidade para saborear cada momento.

Me pego com saudades de quando gastava meu tempo escrevendo poemas, pintando aquarelas e comendo ameixas embaixo de alguma árvore do pomar da vizinha. Me encontro com saudades de quando sobrava tempo para tudo, inclusive para não fazer nada, deitados na areia em frente ao mar e os fins de semana eram mais longos. Saudades de andar mais devagar e manter os pensamentos em forma com mais livros e menos trocas de emails. Estou obesa de uma vida esvaziada, estufada de engolir o que não me apetece, o que não me nutre. Sobrecarregada com todos os desejos que tenho, projetos que arquiteto, anseios que cultivo, sem sequer conseguir cultivar um hortinha no jardim. E todo esse excesso de peso pulando pelos meus flancos me traz uma sensação de sufoco: o mundo virou um casaco bem apertado que me comprime o peito.

Em busca de uma roupa que melhor me sirva, percebo que nenhum extra G ou plus size vai me dar espaço de respiro. Não é a roupa que tem que aumentar. Somos nós que precisamos fazer uma dieta e cortar da vida o que não alimenta os sentidos.

As oito portas da ineficiência

23 julho 2015

Ou: uma crônica cômica sobre meu armário trágico



Gente, que coisa louca é essa de tentar mudar meu armário para algo mais funcional. Aproveitei as liquis das lojas para adicionar algumas (5) peças MUITO básicas ao armário e tirar outras que não uso tanto. Uma das minhas técnicas para não acumular tanta roupa é: sempre que eu compro um item, eu me obrigo a tirar um (ou dois ou três) do armário. Mas mesmo com essa técnica super moderna kkkkkk, eu ainda sofro com excesso e tenho certeza que minhas roupas procriam sem meu consentimento.

Quando me mudei de casa senti a necessidade de comprar um guarda-roupa espaçoso e procurei muito até encontrar um que não fosse tão caro (catei um nessas lojas super populares) e fosse grande o suficiente para caber tudo meu lá dentro. Em vão. É que esses guarda-roupas não são projetados de forma funcional. Sobra espaço, mas faltam nichos para coisas específicas. Em resumo, o que eu precisaria era de um closet dos sonhos, mas a realidade é impiedosa e eu adquiri 8 portas de pura ineficiência parceladas em 12x sem juros.

Comprei o tal armário. Ele ocupa uma parede de 3 metros inteira, é um elefante bege branco empacado no meu quarto e hoje, se eu pudesse, faria uma fogueira de São João com ele. Já perdi as contas de quantas peças tirei para colocar à venda no meu bazar (que está virando lenda por que as peças nunca têm fim) e mesmo assim o armário continua cheio. O motivo? Ele definitivamente não é bem projetado!

Eu confesso, sou uma bagunceira patológica, mas mesmo assim me surpreendo como a gente acumula trecos na vida, para os quais não existem recipientes/nichos/casulos em nossos armários. Minha crise de estilo está virando uma crise de decoração do lar, tomando proporções estratosféricas! kkkkk Alguém me segura?



Meu armário é um estorvo do design. Poucas e rasas gavetas onde mal cabem as calcinhas, meias, biquinis e sutiãs. Muito espaço para pendurar roupas em cabides, porém com prateleiras embaixo que não deixam que eu pendure roupas mais longas. Nichos muito espaçosos que apenas me permitem pilhas de roupa altas, que tombam para o lado. Um varão para calças, de onde é praticamente impossível tirar a calça sem derrubar o varão (daí não utilizo esse espaço). Um local para sapatos onde cabem apenas uns 5 pares. Ou seja: esse armário ocupa um espaço gigante, mas tão mal aproveitado, que eu acho que minha arara + estante que eu usava no outro apartamento, eram mil vezes mais organizadas que meu atual e péssimo investimento.



Então, enquanto o closet perfeito não chega, eu vou sonhando com uma vida onde terei menos roupas e as poucas que vão sobrar, eu vou conseguir ver dentro do armário. Um futuro onde meus brincos, pulseiras e anéis não estarão escondidos dentro de caixinhas fechadas, no fundo escuro e inóspito do meu armário. Vou sonhando com o dia em que meus sapatos poderão dormir DENTRO de algum lugar onde eles não sejam diariamente soterrados pela poeira louca do apartamento em obras do vizinho. O momento em que eu vou abrir minha gaveta de calcinhas sem que elas se joguem aos meus pés, ou ainda aquele minuto em que eu puxarei minhas calças de um varão FIRME, que não desabará na minha mão. Por fim, vou sonhando com um closet seguro, cujas portas não fechem nos meus dedos e sim quando eu de fato, empurrar as portas. hahahahahaha

Seria trágico se não fosse cômico. Essa renovação no armário tem me feito olhar para TUDO o que eu comprei nos últimos anos  de um jeito totalmente diferente. Parece que meu problema com o estilo é, na verdade, um problema de escolhas como um todo, que abrange desde as roupas que compro, até os móveis da minha casa, meus objetos de decoração e até a COMIDA (que eu também tenho mania de comprar coisas que não consigo comer depois)!!!



Ou seja: ME INTERDITEM. kkkkkkk

Beijos, Carols