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Hoje não é um bom dia para ser mulher

09 novembro 2017
Imagem original daqui

E quando eu digo "hoje", esse hoje é todos os dias. Cada vez que eu acordo e abro os olhos. Acordar é uma espécie de nascimento, uma saída de um estado latente para um despertar consciente. Nasci mulher. Todos os dias eu nasço mulher e ao nascer eu tive uma sentença de vida decretada: "você não tem esse direito."

Ontem li esta matéria, o primeiro passo para a criminalização de todo tipo de aborto no Brasil, sob a justificativa de que é preciso garantir o direito à dignidade da vida humana e que essa vida começa na concepção e, portanto, mulheres grávidas de estupradores, mães com risco de vida, mães carregando bebês anencéfalos, poderão ser criminalizadas pelo aborto, pela violação ao direito à vida, caso esta PEC seja aprovada na Câmara. 

Deitei no meu travesseiro e chorei. Não de tristeza, mas de revolta, de raiva, de ódio, de impotência. Chorei por mim e pelas mais de 3,5 bilhões de mulheres no mundo que nasceram com a mesma sentença que eu: "você não tem esse direito". Chorei pela estimativa de que mais de 400 mil mulheres são abusadas no Brasil por ano, mas que apenas 10% dos casos são denunciados à polícia. Chorei por saber que 70% dessas mulheres são, na verdade, meninas e adolescentes e que 89% das mulheres estupradas são pobres, de baixíssima renda e pouquíssima educação. E que 15% desses casos existem dois ou mais abusadores envolvidos e que em 70% dos casos são homens conhecidos ou próximos da vítima. Chorei por saber que 90% das mulheres tem medo de ser estupradas. Que eu tenho medo de ser estuprada.

Você, mulher, não tem direito ao próprio corpo. Você, mulher, não tem direito à dignidade humana. Você, mulher, não tem direito à vida. Mas para nossos deputados, o feto gerado do teu estupro, do teu trauma, tem. Você não tem o direito de decidir se quer ou não prosseguir com a gravidez. Você pode morrer no parto, de uma gravidez aos 12 anos, mas teu feto, que nem nasceu, é mais sagrado que você. Você pode parar seus estudos para cuidar de um filho, enquanto o pai da criança te abandona, porque teu feto merece um futuro, mas você não. Você pode sacrificar sua vida para criar um filho anencéfalo, porque a vida quase vegetativa dele, vale mais do que a sua. Porque você, mulher, não tem direito de escolha. Teu corpo é público, é do homem, da sociedade,  da guerra, do machismo, da religião e de quem mais quiser te violar. 

Diante de mais um golpe aos direitos femininos, eu chorei de raiva por todos os outros direitos que me foram usurpados no exato momento em que eu nasci e pelo único motivo de nascer mulher.

O primeiro deles: a minha voz. Aprendi as primeiras palavras aos 10 meses, precoce. Mas aos poucos percebi que eu não tinha direito a usar minha voz como eu bem entendesse. Não. Dos meus lábios delicados não podiam sair palavrões, nem afrontas ao frágil ego masculino. Não podiam sair respostas ao machismo, nem aos comentários nojentos que eu escutava na rua, porque além do corpo, meus ouvidos também podiam ser violados com xingamentos. Minha voz serviria apenas para proferir palavras boas, sem revolta, domesticadas. E sempre que eu quis me fazer ouvir numa sociedade machista, o mundo me colocava no meu lugar: você é reativa, revoltada, EMOCIONALMENTE IMATURA, mimizenta, feminazi, esquerdopata. Como se minha dor não fosse válida, porque, por lei, ela não é.

Depois eu chorei pelo meu corpo. Esse âmago de pele, osso e músculo que é um prato servido a quem quiser devorar. Um corpo que aos 7 anos recebeu o primeiro assédio sexual vindo de um velho, fato que me emudeceu e me envergonhou e me fez achar que a culpa era minha. Um corpo que só teve coragem de contar pra própria mãe o que aconteceu, quando já tinha 30 anos de idade. Porque a voz, essa voz que eu perdi tão cedo, nunca encontrou forças pra assumir tal violência. Um corpo que ouviu da própria mãe: "quase todas as mulheres da nossa família também já foram abusadas." Dito com uma naturalidade chocante, como se a norma da vida feminina afinal, fosse o abuso.


Depois eu chorei pelos meus ouvidos. Chorei por todas as vezes que um corpo feminino foi julgado pelos homens, pela mídia, pelas próprias mulheres. Todas as vezes que uma mulher foi xingada pelas suas escolhas, tolhida pelas suas vontades, desrespeitada em praça pública ou privada, criminalizada por não querer ou poder ter um filho. Chorei pelo dia que escutei a namorada de um cara dizer que a menina estuprada por 30 homens "procurou" aquilo porque ela andava com bandido. Chorei por cada piada machista que meus ouvidos foram obrigados a ouvir. Chorei de ódio por cada chefe que se aproximou de mim pra me dizer que eu deveria ser mais leve ao confrontar suas ideias machistas. 


Depois eu chorei pela minha liberdade: de ir e vir em paz. De saber que vou sair de casa intacta e voltar intacta. De não (fora) temer que meu corpo seja violado. Chorei porque escolho a roupa que eu posso usar quando estou acompanhada do marido e a que eu posso usar quando estou sozinha. Chorei porque um dia vesti uma saia de oncinha e me chamaram de puta. Coloquei silicone e me chamaram de puta. Fiquei com quem eu queria e me chamaram de puta. Respondi macho escroto na rua e me chamaram de filha da puta. Afinal, mamãe também é do ramo.


Depois eu chorei pelo meu futuro: aquele que nunca chegou. Porque me sentia inteligente e capaz, mas os cargos de chefia quase sempre são dos homens. Porque me dediquei e trabalhei mais que todo mundo, mas enfrentei egos masculinos e nunca recebi uma promoção de cargo na vida, ao contrário, fui demitida. Porque estudei mais, me esforcei mais, batalhei mais, trabalhei mais horas, mas diversas vezes fui chefiada por homens menos preparados que eu. Porque usei a minha voz pra defender o que achava certo e justo e fui calada todas as vezes, afinal, perdi a voz cedo, lembram?

Depois eu chorei por outras mulheres. Aquelas às quais não foram dadas opções de vida a não ser a realidade diária do abuso físico, emocional e psicológico desde a mais tenra idade. Aquelas que nasceram em condições de pobreza extrema, falta de educação e oportunidades. Aquelas para as quais o machismo, o racismo e a misoginia são o prato do dia, self-service, sem balança. Aquelas para as quais a violação do seu corpo é algo NATURAL, pois é a única realidade que conhecem. Aquelas que morrem nas clínicas clandestinas de aborto, porque nosso estado "laico", legislado por homens, impregnado por religiões que representam apenas a si mesmas, e desprovido de mulheres no poder, defende que a vida delas vale menos que a de um feto.

Depois eu chorei pela falta de informação. Aquela que diz que o feminismo não é necessário, porque "eu quero ser dona de casa", sem nem perceber que, o simples fato de você poder "querer" alguma coisa, poder ter essa escolha, já é uma vitória conquistada pelos anos de luta feminista. Chorei por todos aqueles comentários do G1 que falam que o mundo tá chato, que tudo é mimimi e vitimismo, porque parece que bom mesmo, era quando mulher tinha que apanhar calada do marido. Chorei por todas as justificativas religiosas para "defender a vida humana", quando a própria religião mata e estupra tanta gente pelo mundo em nome de qualquer deus, há séculos. E chorei pela dificuldade que as pessoas tem em entender que: se você não quer abortar, não aborte. Mas não obrigue outra mulher a seguir o que VOCÊ acha certo pra VOCÊ. Por fim, chorei por cada homem dando pitaco na vida das mulheres, supondo suas necessidades, regendo nossa vida com pontos de vista criados a partir de seus próprios pênis e simplesmente assistindo ao nosso sofrimento sem fazer NADA, mesmo concordando que talvez a gente até mereça um pouco de dignidade.

Os homens que defendem a criminalização do aborto, são os mesmos que estupram as mulheres, abandonam os filhos e até pagam o aborto quando não querem ser pais. Os homens que defendem a dignidade da vida humana de um feto, são os mesmos que querem ver um bandido morto e não se importam quando uma criança de 9 anos é vítima de bala perdida dentro de uma favela. A bala e a bíblia andam juntas e tem alvos em comum. A vida só tem valor dentro do útero da mulher, ainda que ela seja a alma sacrificada. Fora dela, qualquer criança pode ser abusada, assediada, estuprada, abandonada e morta, afinal, ela já nasceu e isso que importa. A "dádiva" de gerar um filho é, na verdade, uma obrigação. Não é escolha da mulher (ainda que o feto dependa 100% do corpo dela pra viver) e a cada dia que passa, a cada notícia que eu leio, eu vejo que minha voz, meu corpo, meus ouvidos, minha liberdade e meu futuro estão em jogo.

Nascer mulher é uma luta diária. Inglória. Um desamparo.
Nossa vida não é sacra, nem digna, nem humana. Não é nossa.
A nós foi nos dado o direito ao silêncio, à passividade, à condescendência. 
A nós foi dada apenas uma opção: meu corpo, suas regras.

Agora eu choro de dor. Uma dor incapacitante na alma e no corpo. Por mim, por todas nós. Porque não sei aonde vamos chegar. Choro de medo porque sinto que ganhamos batalhas de um lado e perdemos inúmeras do outro. Criminalizar (ainda mais) o aborto é só o primeiro passo para um feminicídio ainda maior. É um retrocesso sem precedentes. Onde tantos lugares avançam em políticas de amparo à mulher, de equidade de gêneros, de promover meios legais das mulheres abortarem sem perderem suas vidas e apoio psicológico para aquelas que decidem ter os filhos mesmo depois de estupradas (afinal elas são livres para DECIDIR), outros tantos dão vários passos pra trás, criando leis medievais que subjugam o corpo feminino às vontades sádicas do patriarcado e da religião, ignorando completamente que, antes de qualquer feto, qualquer "direito à vida", tem que existir DIGNIDADE HUMANA PARA A MÃE. Esta mulher ESTÁ VIVA E PRECISA que essa vida seja digna.


Eu, Carolina Burgo, estou à beira de um colapso. Sedimentando raiva e revolta por cada coisa que perdi na minha vida e por todas que ainda vou perder só por ser mulher. Nos últimos 2 anos tive momentos em que me abstive de ler notícias trágicas e passei a assistir apenas vídeos de cachorrinhos bebês e ovelhas de pijama, porque deixei de conseguir ser feliz. Tive depressão. Chorei, perdi a vontade de viver, de escrever, de pintar. Porque todos os dias morre uma de nós. Uma de nós é estuprada. Uma de nós, todas nós. Nesses últimos 2 anos mesclei momentos de profunda anestesia com outros de incrível revolta. Briguei, fui grossa, retruquei comentários machistas, desci o nível, fiz inimizades. Em outros momentos calei, adormeci, chorei escondida, fingi que não vi, me abstive de pronunciar minhas opiniões. Me afastei de pessoas que não consideram minhas dores nem as dores do próximo, evitei pessoas com pensamentos machistas perto de mim, gente que defende personagens tóxicos como Bolsonaros e Felicianos, gente que defende a ditadura, gente que defende qualquer pensamento que possa nos privar AINDA MAIS da nossa liberdade, da nossa humanidade.

Debati, me informei, li livros que me mostraram realidades femininas muito diferentes das minhas, aprendi a ser mais empática, entrei em grupos onde mulheres se ajudam a suportar as dores da alma e do corpo umas das outras, porque nós sabemos que as primeiras vítimas de qualquer tipo de opressão, violência e usurpação da liberdade são sempre, sempre, SEMPRE, as mulheres. E hoje vim aqui despejar minha revolta, meu descontentamento, minha profunda infelicidade pelo que está acontecendo no Brasil (e em tantos lugares do mundo), porque não é possível que minha influência só sirva pra falar de looks e viagens. Pelo menos aqui, neste espaço, eu tenho voz.

Eu sei que esse texto vai gerar uma provável onda de ódio, afinal é muito difícil aceitar que uma mulher tenha o direito à liberdade, à dignidade e ao seu próprio corpo. E sei que hoje não é um bom dia para ser mulher, mas também sei que não é um bom dia para ficar calada.

Ponto de vista

07 outubro 2016
São 7:30 da manhã e eu sempre quis um apartamento com vista. Vista pro mar, vista pro jardim, vista pra serra, vista pra rua. Mas nem sempre a gente consegue o que deseja, não porque a vida seja má, mas porque a balança pende pra um lado e outras prioridades se tornam mais importantes que uma vista para o céu.

Ainda que seja penoso admitir que qualquer coisa nessa vida seja mais importante que olhar para o céu, eu admiti, e admitindo optei por um apartamento com vista para as paredes de outros apartamentos. Pensei: trabalho tanto, mas tanto, que me parece mais importante ter um apartamento  realmente confortável do que o prazer de uma vista.


Sento no sofá, com meu café quentinho entre as mãos, aquecendo os dedos no calor da xícara e olho para fora. Percebo o sol brilhando pelo reflexo forte nas paredes brancas do edifício vizinho. Chega a doer meus olhos. Coloco a cabeça na janela e sinto o ventinho gelado desse inverno atípico no Rio. Olho pra cima e o céu me invade as pupilas pela fresta que sobra entre os prédios. A vida urbana cria molduras de concreto e o azul vira peça de arte para a observação dos mais atentos. Aquele pedaço de céu, só eu vejo, só eu tenho.


Olho pros dois vasinhos de planta que meu namorado cuidadosamente cultiva no parapeito. São plantas pequenas, pouco frondosas, poderia até dizer que são discretas, mas a natureza tem a capacidade de se impor, não importa o seu tamanho. Posiciono minha câmera por baixo da planta para tirar uma foto do meu pedacinho particular de céu azul e as folhinhas invadem meu enquadramento com uma revelação: a perspectiva transforma o pequeno em gigante.


Aquele pensamento desencadeia muitos outros. A miudeza de tantas coisas tem uma imensidão dentro da gente. Penso nos sentimentos miúdos que cultivamos, nas pequenas tristezas, nos atritos bobos, nas frustrações ligeiras, nas caixinhas onde nos apertamos. Penso em como nossos problemas são pequenos vistos do céu, mas enormes quando vistos da perspectiva de cada planta que cultivamos no peito. Pequenos vasinhos que acumulamos, regamos, cuidamos, vasinhos que poderiam decorar quem somos, como um adereço.

Beijos, Carols

Mudando o jogo

03 novembro 2015
Eu tenho este blog há 5 anos. Antes dele tive outros blogs, de textos, de ilustrações, de inspirações. Mas este é o "projeto" no qual estou engajada há mais tempo e em todo esse tempo a pergunta que mais me fizeram foi: "como é que você ainda não ficou rica e famosa com suas redes sociais? Tá esperando o quê????" Leiam isto com um certo tom de indignação por parte do interlocutor da pergunta, por que o sentimento é quase esse. Falam como se eu estivesse perdendo a chance da minha vida, como se eu fosse dona de um potencial gigantesco e fosse cega por não enxergar a oportunidade que é ser uma "blogueira famosa" e simplesmente não enxergam o tamanho da dependência que isso pode causar.

Todas as vezes que escutei essa pergunta, respondi da mesma forma: o blog não é um fim, é um meio. Não é com o blog que eu vou ganhar meu dinheiro, mas divulgar meu trabalho fora dele. Com o blog eu tive a oportunidade de vir para o Rio, escrever roteiros para uma marca feminina que falava de moda e trabalhar numa das maiores agências do país, por que precisavam de alguém com esse perfil de linguagem. Com minhas redes sociais eu pude migrar da função de ser uma diretora de arte offline (que faz cartaz, outdoor, etc) para ser uma criativa digital, por que eu entendo como funciona esse ambiente. Com minhas ilustrações postadas no instagram eu pude fazer minha primeira coleção de estampas para uma marca de biquinis. E com essas mesmas ferramentas eu hoje divulgo tudo o que crio para a Prosa. Eu sou dependente das minhas redes para divulgar meu trabalho, mas não precisaria dessas redes para hoje, conseguir trabalho numa agência. Eu continuo tendo uma profissão que me dá sustento independente de eu postar fotos minhas no instagram ou não.

Mas esse foi o caminho que eu escolhi. É óbvio que ganhar dinheiro com o blog/instagram é maravilhoso e é sim uma oportunidade de ganhar um extra, principalmente no meu caso, que sou uma empreendedora em começo de carreira e o dinheiro não sobra. Mas o outro lado da moeda é feio e duro. Vou explicar:

Há tempos observo o comportamento dos perfis que fazem sucesso repentino no instagram. Observo por que tento compreender por quê o meu não faz tanto sucesso assim, vejam só. Eu me dei ao trabalho de me incomodar com algo tão irrelevante quanto isso por que até achava meu conteúdo interessantinho e tal e sim, me comparei a outras pessoas, por que sou humana. Mas cheguei a uma conclusão: meu perfil/personalidade/estilo não é tão comercial. E ponto. E assim parei de sofrer, por que no fundo não quero mudar essa essência. Mas a verdade é que quanto mais pessoas me seguirem, mais pessoas vão ver meu trabalho na Prosa e isso é o que realmente me interessa pra mim.

Contudo, o que eu observo é que os perfis que mais fazem sucesso são aqueles que não trazem nada além da exploração excessiva da imagem da pessoa. Perfis construídos com selfies, looks, frases de efeito, idas ao salão. É isso que "as pessoas curtem", dizem. E realmente não tem nada de mais nisso, mas em algum ponto isso é uma espécie de epidemia coletiva. Por isso, a título de curiosidade mesmo, comecei fiscalizar quantos likes recebe uma foto minha e quantos likes recebe uma obra de arte que eu curti em alguma exposição e eu nem preciso dizer quem ganha essa batalha, né? A selfie, claro. Mas a partir do momento em que uma ~web celebridade~ toma consciência dessa (ir)realidade, ela transforma toda a sua existência em algo "publicável" e até pra ir na padaria da esquina, ela não esquecerá de usar uma make poderosa e manter os cabelos impecáveis. E digo isto por que já me incomodei de ser "reconhecida" na rua e estar descabelada e de chinelo, como se minha imagem completamente NORMAL fosse algo absurdo. Quando a pessoa começa a ganhar dinheiro com isso, o caso fica ainda mais grave. Ela se torna uma vitrine virtual de marcas, poses e um estilo de vida que, em raríssimas exceções, correspondem à realidade daquele ser humano que acorda com olheiras e bafo como todo mundo.

O que acontece é que criamos uma realidade que agrada aos outros e depois ficamos reféns dessa realidade, nos sentindo eternamente obrigadas a reproduzir aquele mundo fantástico dentro das nossas redes. E isso é o universo de um ser humano famoso ou não. Agora imaginem a proporção desse problema refletido numa geração inteira? E aí eu compreendo quando dizem que ser blogueira/personalidade digital/whatever é um trabalho, por que é mesmo. Dá mesmo muito trabalho sermos constantemente sequestradas da nossa vida comum pelo simples fato de termos criado um perfil que "inspira" tantas pessoas. Até as blogueiras da "vida real" como eu, tem sua parcela imensa de irrealidade, por que no fundo, como minha própria mãe diz:



 "Carolina, ninguém quer ver sua realidade nua e crua por que isso é o que todos nós vivemos. As pessoas querem ver o sonho que ameniza e nos distrai das mazelas das nossas próprias vidas." Mamãe sempre sabe das coisas.


 Imaginem um instagram de legendas reais.


Vejo cada dia mais meninas abandonando suas profissões para viver das suas redes sociais. Vivem da sua imagem, da sua beleza, do seu sorriso. E até aí tudo bem. Mas a velhice chega para todos, as rugas surgem, as celulites também, e me pergunto o que farão depois que a juventude passar. Se hoje Iris Apfel é modelo aos 94 anos, é por que ela construiu algo maior que a beleza que nunca teve. Se tudo o que você faz é pautado pela própria imagem, o que você será depois que essa imagem não existir mais? Será que elas pensam nisso? Será que pensam como farão essa transição? Ou pretendem viver para sempre tirando fotos "inspiradoras" com símbolo de paz e amor nos dedos, enquanto travam uma guerra interior? Não seria essa uma caricatura triste de um vazio muito grande que ainda está por vir? A conta vem a galope.

Pergunto tudo isso por que eu mesma sinto esse vazio em alguns momentos e olha que eu nem sou famosa. Sinto angústia quando não tenho nenhuma foto legal pra postar no meu instagram ou quando o dia está chuvoso e a paisagem não colabora para os meus clicks. Ou pior, quando não tenho uma foto que vai gerar likes. Isso sem contar em quantas vezes perdi as contas de quantas vezes me senti culpada por passar 3 horas no instagram bisbilhotando a vida das pessoas enquanto eu poderia estar lendo um livro. Ou imaginando como será lindo quando eu tiver filhos e postar fotos deles. E os filhos ainda nem nasceram, gente. Isso é doentio e muito sério. Tão sério que transformou a vida de Essena Oneil, blogueira australiana que cometeu recentemente o que eu chamo de suicídio digital.

Essena tem mais de meio milhão de seguidores no instagram e consquistou esse número marcante à custa da sua própria vida. Ela não morreu fisicamente, mas no sentido figurado. Perdeu-se de si, das coisas e pessoas que amava, e virou um fantoche lucrativo da realidade ilusória que criou para si mesma por que, um dia, ela achou que aquilo era um sonho, mas não foi.

Quando li esta matéria sobre Essena, eu entendi perfeitamente o que ela fez. Algo que já passou pela minha cabeça inúmeras vezes e eu nem tenho 500k no instagram. Essena apagou seus vídeos mais assistidos do youtube, apagou seu tumblr e excluiu cerca de 2 mil fotos no instagram. Nas fotos que sobraram, ela editou todas as legendas para mostrar a REALIDADE por trás daquelas imagens e o resultado foi chocante. Essena ganhou muito dinheiro com suas redes sociais, mas perdeu a conexão consigo mesma. Esqueceu que amava artes plásticas e virou uma modelo de instagram, fotografando biquinis para marcas diversas. Esqueceu suas relações familiares e, inclusive, brigava com sua irmã para que ela tirasse melhores fotos. Esqueceu o prazer de fazer um passeio sem compromisso e transformou cada momento e cada paisagem em ensaios fotográficos extenuantes, só para ter conteúdo para postar em suas redes sociais. Criou uma realidade que só fazia sentido no instagram, por que fora dela, era esvaziada de sentido. E quantas pessoas fazem isso? Milhões, inclusive eu. E justamente por isso eu já me questionei centenas de vezes sobre o que fazemos diariamente com nossas vidas online. Eu, que sempre fui sincera e sempre apreciei a verdade, doa a quem doer, me vi doída com o relato de Essena.

Me vi doída cada vez que eu deixei de postar algo que eu achava incrível, simplesmente por que "as pessoas não vão curtir". Quão doente é sentir isso? Em maior ou menor escala, o fato é que estamos reféns das nossas redes sociais a tal ponto que não sentimos que vivemos algo se simplesmente não compartilharmos essa vivência com o maior número de pessoas possível, na maior quantidade possível de redes. A nossa dependência psicológica da aceitação via likes é tão grande que tudo o que compramos ou ganhamos precisa ser divulgado. O que comemos precisa ser compartilhado. Até o cachorro e o gato que temos precisam também ser celebridades de instagram, com perfis, poses e fantasias, e nós nem sabemos mais qual é a função de cada esfera da nossa vida, a não ser servir como mais um cenário idílico da novela que criamos para mostrar para os outros. Presenciamos a era do Eu-Ostentação. O caso é tão sério que, dia desses, me perguntaram se eu estava solteira novamente, simplesmente por que nunca mais postei fotos do boy no meu instagram e eu fiquei verdadeiramente chocada. É como se a existência das coisas da minha vida dependesse exclusivamente da exposição delas nas minhas redes sociais.

Eu sempre dei muito valor à minha liberdade (artística, física e intelectual) e sempre tive sérios problemas em assumir compromissos dos quais eu não poderia desistir. Mas a partir do momento que você "cria" esse universo paralelo você fica, de certa forma, enclausurada nele, comprometida a levar adiante algo que nem sempre te faz feliz e por um simples motivo: as pessoas esperam aquilo de você e pior, elas te cobram por algo que recebem de graça, mas que para você tem um custo. Isso acontece em qualquer profissão e com qualquer pessoa, mas quando o motivo da infelicidade somos nós mesmos, o buraco é mais embaixo. E se já é difícil atender às expectativas que nossos amigos e famílias exigem de nós, imagina fazer isso para milhares de seguidores? Uma vez que você "entra nesse jogo" é imperativo que você saia dele vencedor ou as pessoas simplesmente não vão entender COMO você ainda não ficou rica e famosa, por que simplesmente ninguém trabalha com a opção mais sensata que é você querer preservar apenas o que te faz feliz.

Hoje, mais do que nunca, eu sei que meu blog não é meu futuro e sim uma ferramenta para meus projetos, mas se for para eu enriquecer, que seja de uma vida cheia dos meus sonhos, das exposições que eu vou, das coisas que eu crio, dos livros que eu leio, do trabalho que eu faço, das pessoas que eu amo, dos destinos que eu visito e das palavras que eu gosto de escrever aqui para vocês. O blog não pode ser maior que eu. Meu instagram não pode ser maior que minha vida real e que minha imagem não pode ser maior que meu intelecto, nunca, jamais, sob hipótese ou dinheiro algum. E esse é um mantra que tento repetir para mim mesma cada vez que me sinto "invalidada" por não ter nada "interessante" para expor. Por enquanto, eu e tantas mulheres, ainda sofremos as angústias de uma geração que vive de likes, mas tenho fé que a necessidade de uma realidade verdadeira vai chegar para todas nós. Já está chegando. No momento, me pergunto quantas meninas já chegaram a essa conclusão e espero que consigam entender que, daqui a 50 anos, nossos cérebros vão valer mais que nossas peles perfeitas e cabelos impecavelmente ondulados e que é preciso mudar o jogo para construirmos algo mais consistente que fotos bonitas para o instagram. 


Cabides vazios

18 junho 2015

Eu ainda estou tentando entender o que está acontecendo, mas por mais que eu invente desculpas diversas, nenhuma me parece apropriada para o meu momento, digamos, apático da minha vida fashion. A verdade é que ando sem aquela vontade incrível de escolher um look do dia, de montar uma produção maravilhosa, de sair de casa abalando quarteirões. Poderia dizer que é preguiça, falta de motivação, falta de tempo, ausência de criatividade...inclusive pode até ser isso tudo junto, mas acredito que meu celibato momentâneo com a moda pode ter outras razões mais profundas.


Sou uma pessoa que defende com unhas e dentes que a nossa forma de vestir é uma extensão da nossa personalidade, do nosso momento, do que sentimos. E por isso acredito que minha vontade de ~arrasar~ anda tão em baixa, por que estou passando por um momento de recolhimento agudo no qual estou sendo preenchida por tantas outras coisas, que mal sobra tempo para pensar no que vestir. É que eu estou num desses pontos de transição em que a gente começa a reavaliar a vida, as vontades, as prioridades, todos os questionamentos pré-30 anos. Essa introspecção toda, essa viagem ao centro do ~umbigo~ vem acompanhada de vontades diferentes: talvez mudar para um lugar mais tranquilo, talvez desapegar de quase todas as coisas que tenho (por que estou angustiada com a quantidade de inutilidades que acumulo), talvez ter uma vida que caiba dentro de uma mala, talvez transformar a minha marca numa experiência mais livre e artística possível, talvez me ausentar um pouco das redes sociais que tanto ocupam nosso tempo e quase nunca enriquecem nossa existência, talvez passar mais tempo em silêncio, talvez dormir mais cedo, talvez voltar a estudar. Talvez. E com tantas incertezas, não saber o que vestir me parece ser o menor dos problemas.


Seja qual for o motivo dessa minha hibernação fashion, é bem verdade que, o fato de hoje eu ter que pensar/ver referências/criar 24h por dia estampas e modelos de roupa, tem feito com que meu guarda-roupa pareça o lugar mais desinteressante da face da terra. É como se eu abrisse as portas de uma casa vazia, cheia de cabides vazios, onde não me encontro mais ali dentro. Me pergunto se todo mundo que adora moda passa por um momento desses.


Mas o que eu posso fazer para reverter esse quadro estranho, que tem me feito sair de casa de chinelo havaiana (coisa que eu jamais pensaria em usar fora da praia)? Acho que vou pensar em mim como uma coleção, fazer brainstorm do que eu sou, criar meu conceito, exercitar possibilidades, analisar meus pontos fortes e fracos, montar um mural de novas inspirações, cores, estampas, desejos e, quem sabe, encontrar uma nova Carolina para compartilhar por aqui. :)


Beijos, Carols

Terra à vista

06 março 2015
Se te jogassem no meio do mar, de olhos vendados, para que lado você nadaria?

Foram alguns anos de natação. Talvez uns 3, mas a memória infantil não me permite recordar com clareza a exatidão do tempo. Quando somos crianças (ou quando amamos) o tempo tem uma proporção diferente e somos incapazes de calcular o real distanciamento dos eventos. Portanto, presumo que os 2 anos em que treinei nas piscinas do Corpo de Bombeiros de Sintra, talvez sejam apenas alguns meses. De toda forma, eu sei nadar. Bem. Crawl, peito, borboleta, costas, aquela cambalhota marota que nos impulsiona a voltar a raia inteira novamente. Então nadar não é um problema. De quebra ainda sou apaixonada por mar e fui criada nele. Praia o verão inteiro, ondas quebrando na cabeça, muita água engolida, muita maré que puxa, muita areia embaixo dos pés. Por pior que seja a correnteza, a praia está ali para nos mostrar que a segurança está por perto.


Mas aí a gente se encontra à beira dos 30 anos, depois de nadar um sem fim de estranhas marés e não chega nem perto de uma ilha paradisíaca, serena e estável. Estamos em plena tempestade, sem vela, nem bóia de resgate. Nadadores olímpicos, mergulhadores profissionais, divas do nado sincronizado, surfistas de tsunami, sereias de contos infantis, todos sem exceção têm um destino para o qual precisam direcionar suas braçadas. A metáfora pode parecer boba, mas o sentimento é real e é nele que me encontro, eu e tantas pessoas da minha idade.


Estamos nadando sem bússola, sem astrolábio, sem ver um pedacinho de pedra que nos dê um norte. Paralisamos diante da imensidão do mar de possibilidades e nos tornamos incapazes de fazer planos, seguir rotas, porque não sabemos qual o destino que queremos chegar. Crise dos 30, uns dizem. Crise da geração, dizem outros. Nossos pais tinham um único propósito: casa, comida e estabilidade. Nós, frutos dessa geração intermediária entre o telefone fixo e o iPhone, queremos a felicidade plena, as viagens loucas, as descobertas intensas, a liberdade sem limites, as experiências inesquecíveis e, por fim, o mesmo que nossos pais: a casa, o casamento, os filhos, a estabilidade, a maré calma. É muito destino pra pouca braçada e às vezes falta fôlego pra seguir nadando.


É certo que em meio a esse mar revolto a sobrevivência prevalece, porque essa é a natureza humana. Somos marinheiros de uma viagem só. É certo também que e a ordem natural das coisas ajusta nossos eixos e se encarrega de nos mostrar um caminho, seja ele qual for. Mas enquanto o caminho não surge, enquanto o mar não acalma, enquanto a água é tão funda que não vemos os pés no chão, nossa alma vai sendo inundada por angústias que nos levam a acreditar que, de nada adianta saber nadar, se não houver no mar, um pedaço de terra à vista.


Beijos, Carols

Compramos o sonho

21 janeiro 2015
Apesar de ser uma pessoa relativamente desligada e desatenta para mil coisas que acontecem no meu dia a dia, eu sou bem observadora quando o assunto gira em torno do comportamento humano. Em algum momento da vida desejei ser psicóloga, não porque eu sou uma ótima conselheira, mas porque sempre tive curiosidade sobre as motivações humanas mais profundas para os nossos comportamentos.

Este ano o Small completa 6 anos de existência e neste tempo eu pude observar não só o tipo de envolvimento das minhas leitoras em relação ao meu blog, quanto a forma como outros blogs de moda/vida/etc se desenvolveram e ganharam públicos fiéis. Em tempos de redes sociais, cheguei a algumas conclusões que poderiam ser tema de tese (caso já não sejam).

Compramos o sonho.

Compramos, no sentido de consumir, claro, porque o sonho mesmo custa muito caro. Mas o que eu quero dizer com esta frase é que blogs e perfis de garotas que usam dezenas de marcas milionárias e maravilhosas, que viajam pelo mundo de classe executiva e comem nos melhores restaurantes, que usam saltos altos sem fazer calo, frequentam spas, têm personal trainer, cortam o cabelo nos melhores salões, têm vidas sociais agitadas, festas e pontes aéreas loucas, idas a Miami, maquiador e fotógrafo sempre à disposição, nos encantam pelo simples fato de mostrarem uma realidade à qual dificilmente teremos acesso como pobres mortais. E o Small e tantos outros blogs de amigas "não-ricas" kkkkk vendem uma realidade tão mais próxima da maioria das mulheres, que acabam crescendo a uma velocidade infinitamente inferior aos blogs "ricos", porque a nossa realidade já é familiar logo, menos interessante. A "vida real" não é um must-have. Na realidade do Brasil então, é quase um must-forget. E por isso queremos ver fotos lindas, comidas lindas, paisagens lindas, imagens inspiradoras. Por que "pobreza e realidade" só vendem quando fazem parte de um discurso exótico para servir como pano de fundo para o luxo.



Alessandra Ambrósio e Cara Delevingne em ensaios "favelísticos" para a Vogue Brasil.

Eu confesso: sou uma dessas seguidoras que acompanha a vida de dezenas dessas meninas que, além de abençoadas pela beleza, riqueza e elegância, têm um talento e inteligência especial para os negócios e transformam suas vidas num reality show lucrativo que eu, particularmente, adoro assistir. De verdade, sem inveja e sem falar mal, porque acho muito babaca quem perde tempo seguindo pessoas para xingar e usar sua "liberdade de expressão" pra ofender quem nem conhece.

Eu sigo, curto e admiro a vida dessas garotas e entendo que a realidade delas não é menos real que a minha. É apenas diferente. E essa realidade aumentada com lentes e filtros poderosos, com possibilidades sem limites, é o que faz com que esses blogs e perfis tenham tanto sucesso. Elas podem vestir Renner hoje e Valentino amanhã ou os dois juntos e serem descoladas, transitando entre a nossa realidade e a realidade delas. Nós só podemos vestir Renner, mas queremos sonhar com Valentino. Nós comemos arroz com feijão, mas queremos sonhar com pato confit acompanhado de batatas rústicas e aspargos. Somos humanos.



Meus it perfis preferidos - @camilacoutinho e @sincerlyjules: sonho sem ostentação.

Não, não é o Small, um blog de looks de fast-fashion, que vai ativar nosso sentido mais primitivo de desejo e ambição (saudável, claro), de mover mundos e fundos por uma vontade (ainda que material). Não é aquele blog de moda super bem escrito e cheio de informação ultrabacana, não é aquele outro cheio de dicas legais, não é o offprice, o plus size ou o mais criativo blog de moda que vai movimentar milhões de acessos por mês. O Small (e tantos outros) vai apenas mostrar que dá pra ser feliz com o que temos, mas não dá pra ser perfeita, ter a maquiagem em dia e viver num sonho. E querer um sonho pode não ser ruim, tá? Mas é impossível.

Muitas dessas meninas são hoje, o que eram as modelos, atrizes e cantoras, para nós no passado. Elas ditam, inspiram e imprimem seu estilo de vida no nosso dia a dia e é quase impossível não nos rendermos aos encantos dos seus vestidos bordados. O que gostamos de ver é aquilo que não podemos ter (seja agora, seja a longo prazo), tipo amor cafajeste. É tão humano e tão verdadeiro, que chega ser estranho ter que dizer isso, mas eu sei, por exemplo, exatamente as fotos que mais vão fazer sucesso no meu instagram, porque são aquelas que trazem os sentimentos de desejo irreal: praias paradisíacas e poses de diva. hehehehe Nós consumimos o sonho, o aspiracional, o impossível e até mesmo o que não existe. Nosso ideal de vida é impossível, nosso padrão de beleza é impossível, nossa concepção de amor é impossível e é impossível para todo mundo, inclusive para elas, já que muitas fazem da vida uma correria insana que eu nem invejo, porque sei que essa vida tem um custo que eu, Carolina, não gostaria de pagar. Só de receber, claro. hahahah

Se por um lado esse "amor platônico" gera uma série de inseguranças, frustrações, rompantes de ódio e inveja, por outro alimenta um desejo muito poderoso de conquistar mais e melhor. A gente aprende a admirar a vida do outro e a trabalhar para buscar experiências semelhantes. Vejo perfis de meninas que hoje têm milhares de seguidoras porque postam apenas roupas maravilhosas, maquiagens perfeitas, cabelos sem um fio fora do lugar e nada, absolutamente nada tão real quanto uma unha descascada ou um look de metrô. E é ok seguir esses perfis, desde que saibamos discernir o que nos faz bem e o que nos incomoda. (e em caso de incômodo, apenas paramos de seguir, sem xingamentos)

Eu ando de metrô, você anda de metrô, todo mundo anda de metrô, mas a gente quer ver o sonho de andar de metrô em Nova York, com um visual high-low que mistura um trench coat Burberry com tênis allstar furado. É claro que eu falo por mim (e por amigas com quem já debati este assunto) e sei que muitas mulheres podem não se identificar com nada neste texto, mas acredito que todas nós, em algum momento da vida, desejamos alguma coisa muito fora da nossa realidade, porque o sonho não custa nada e a realidade às vezes custa até de acreditar.

Aí eu vejo toda uma comoção em prol da mulher real, a beleza real, o corpo real, da vida real e penso: será que as pessoas realmente querem ver isso? Se quisessem, porquê falariam do nariz de uma menina, do joelho da outra, da gordura de não sei quem? Será que vão realmente consumir essa realidade? Acredito que não, porque se fosse assim as "blogueiras da vida real" seriam verdadeiras It-girls. E tenho um exemplo pessoal de como essa vontade de ter o sonho funciona mais do que a vontade de ver a "realidade": uma das fotos mais curtida da história do meu instagram não é a que eu estou desenhando uma nova ilustração, é aquela em que eu estou totalmente fora da minha realidade, numa lancha (que não é minha), de biquini (da minha loja), curtindo a vida glamurosa (e sem dinheiro), numa ilha paradisíaca (com mil pessoas), com o sorriso de quem acabou de ganhar na mega-sena (só que não).

É um sonho, ainda que breve.

Beijos, Carols

Vem 2015, sorrindo

29 dezembro 2014
* Este não é um texto feliz.*

Antes que alguém pense que este post é uma retrospectiva dos melhores looks de 2014 neste blog, eu adianto, a retrospectiva é de vida, como todo fim de ano deve ser. Não sei quem foi que instituiu que existe um dia certo pra gente fazer o balanço do ano que vivemos, de tudo o que passamos, mas agradeço de coração ao gênio que inventou o reveillon, porque eu sou tão desorganizada e procrastinadora, que jamais iria me programar para organizar meus pensamentos e olhar para trás, pra perceber o que foi que eu vivi.


*

2014 foi o ano mais estranho desde que cheguei ao Rio de Janeiro. Foi, com certeza, meu ano mais introspectivo, apesar do meu instagram permanecer quase o mesmo dos anos anteriores. É que não sou de compartilhar minhas mais profundas angústias (sempre tento minimizá-las sorrindo), porque problema a gente resolve dentro da gente e com o melhor humor possível. Não sei se foi a chegada dos 29 ou a idade finalmente pesando, mas alguma coisa muito robusta aconteceu por aqui.

2014 foi o ano que mais escrevi textos pessoais neste blog (e isso denuncia o quanto eu precisava desabafar! kkkk). O ano que mais vesti estampas bagunçadas e roupas fora de proporção. 2014 foi o ano que mais consumi arte e livros e quanto mais eu li, mais eu quis ler. Foi o ano dos maiores hiatos de silêncio e semanas sem postar. Foi o ano de desajustar os ponteiros, sair da zona de conforto e encontrar um caminho profissional novo (e não necessariamente mais feliz), o ano dos testes e das provações. Foi o ano de aceitar que nosso destino não pode ser traçado conforme a expectativa dos outros e que o sonho da casa-própria-filhos-marido, pode ficar para depois. Bem depois. Até talvez não para mim.

Dizem que Saturno andava por aqui pelos signos de todo zodíaco, pilhando, saqueando, machucando e ensinando todo mundo a ultrapassar tempestades e assim foi 2014 por estas bandas. Foi o ano que mais perdi óculos escuros, mas que mais ganhei amigos. Foi o primeiro ano de cidade maravilhosa em que me vi novamente apaixonada, mesmo que tenha dado tudo errado. Errado pra cacete. Mas pra compensar, em 2014 foi a primeira vez que ganhei flores. Em 2014 criei coragem para largar um emprego bom e abrir meu negócio, aos trancos e barrancos e nele estou me esfolando até agora. Foi a primeira vez que comprei uma passagem pra viajar sozinha. Foi o ano que mais me senti sozinha, mesmo acompanhada.

2014 foi o ano que menos fiz farra desde que cheguei ao Rio. Foi o ano que mais comi salada de atum, não que isso seja algo relevante. O ano que mais vi brotar rugas nos olhos e cabelos brancos. O ano que tive a pior saúde de todos os tempos, e quando o corpo padece, a mente vai junto. 2014 foi o ano que mais desconstruiu meus sonhos, que eu julgava tão certos, e que não trouxe outras expectativas para colocar no lugar. 2014 foi simplesmente o ano do "vamos ver no que dá". O ano do "eu não sei o que fazer, eu não sei pra onde ir", o ano do "quero fugir, quero desistir, quero dormir", o ano "e se eu saísse daqui?" Mas aí a gente lembra que o coração sempre vai junto.

2014 foi o ano em que eu pensei, pela primeira vez, que talvez fosse a hora de arrumar outra cidade pra morar, talvez outro país, talvez Saturno, mas lembrei que esse planeta é um sacana. Aí a gente cai na real e continua a labuta com ou sem prazer, porque a sobrevivência tem mais urgência que a felicidade. Olha, 2014 foi uma merda, mas quem sou eu pra reclamar, quando tem tanta gente com problemas maiores? (mas estou fazendo isso agora, sorry).

Tive praia, tive piscina, tive amigos, tive sorrisos, tive amores tortos, tive momentos muito felizes, tive flores, tive livros, tive viagens, mas como falei antes, alguma coisa robusta aconteceu aqui. Ou melhor, alguma coisa robusta FALTOU acontecer aqui, pra fazer deste um ano sublime, digno de ser lembrado. Se vai ser no dia 31 de dezembro que eu vou ter a revelação do que foi, eu não sei, mas sei que 2014 já vai tarde e não me deixou um gostinho bom, mesmo com tanta salada de atum (meu prato favorito). Pelo menos o ano rendeu os melhores looks e textos minha vida até agora. Só posso acreditar (porque fé não falta) que tenho alma de poeta: crio melhor quando me dói qualquer coisa.

Vem, 2015. Mas vem de bom humor, por favor. Vem sorrindo pra mim.

(e pra todos nós)

Beijos, Carols

É melhor ser feliz

21 novembro 2014
Quantas vezes já vesti alguma coisa, na vida ou no blog, e já ouvi: "Carol, não achei bonito/ Não ornou/ Ficou feio/ etc? Inúmeras. E antes que vocês pensem que isso pode abalar minha vontade de vestir coisas "estranhas", eu adianto que não. Sempre gostei do ritual de criar um texto mais interessante para a minha roupa, um discurso que dissesse algo mais consistente do que apenas um "nossa, que bonita". É claro que a moda está aí para elevar nossa autoestima, fazer a gente se sentir bem com o que vê no espelho, mas é preciso deixar claro que beleza e autoestima podem até caminhar juntas, mas a autoestima é um processo de autoaceitação/autoadmiração que ultrapassa a necessidade de estar/ser, de fato, bonita e, portanto, essas duas variáveis podem andar muito bem separadas. E aí o que acontece é que muitas mulheres têm usado a moda como um catalisador de autoestima, mas de um jeito ruim. E isso se tornou uma espécie de maldição: ou você está amaldiçoada pela moda, ou amaldiçoa outras mulheres por causa dela. O que isto significa na prática? Que deixamos de saber nos divertir com o que a moda tem de melhor. Deixamos de saber ousar, testar, arriscar, com medo de cara feia. Mas, como diria minha sábia avó: cara feia é fome.

Andamos por aí com dedos em riste dizendo o que pode ou não ser vestido. Que proporções devem ser respeitadas, que cores são ideais, que tipos de roupas servem para essa ou aquela, como se a moda fosse uma espécie de serviço militar (é guerra, gata!) cuja única missão é a de alcançar o aval da maioria e escutar um unânime "você está linda!". É bom ouvir isso? Claro que sim, mas eu sinto um prazer muito mais visceral quando escuto: "Porra, que look criativo! Que interessante! Que diferente!", porque isso significa que eu traduzi um pedacinho da minha personalidade. Visito dezenas de blogs de moda, sigo e acompanho o estilo de diversas garotas e não deixo de me surpreender com a pasteurização e repetição dos looks do dia. É claro que não é ilegítimo buscar a beleza (acho legítimo demais e busco também), mas às vezes me questiono se essa beleza "que todo mundo tem" traduz a essência das pessoas ou se apenas nos tornamos vitrines passivas do que vemos nas lojas, nos blogs, nas revistas. Ou se todo mundo tem a mesma essência. Ou se andamos com problemas generalizados de autoestima feminina. Ou se eu deveria parar de questionar essas coisas...

Um caso a se pensar.



Então me deparei, dia desses, com uma entrevista com a designer de interiores e ícone fashion americana Iris Apfel. A moça de 93 anos é famosa pelo seu estilo über poluído, ultra acessorizado, maxi exagerado. Iris, como tantas outras pessoas que usam a moda para se divertir, acredita que o processo de autoconhecimento é o primeiro passo para qualquer mulher encontrar seu estilo e, pasmem, aplicá-lo independente do que os outros vão pensar dela. E, apesar de ser uma mulher excêntrica e independente, acreditem, Iris foi feliz no amor, vejam só. E aqui eu entendo que a moda pode ser uma ferramenta de liberdade de discurso feminino e deve ser uma espécie de poder através do qual mostramos o quanto somos bonitas, mas acima de tudo, interessantes, cada uma à sua maneira, sem dedos em riste.

Durante a entrevista, Iris comenta que existe uma disparidade entre o que somos e o que enxergamos no espelho. Segundo ela, essa incapacidade de ver nosso verdadeiro eu é uma grande falha de quem usa a moda para "seguir padrões", porque isso nos tira a capacidade de decidir o que realmente nos faz bem, em detrimento daquilo que os outros vão aprovar. O processo de "enfrentar" o olhar alheio pode ser doloroso, mas esse caminho em direção à própria essência é recompensador e se a moda for um fio condutor dessa descoberta, então oba!, enfrentaremos esse olhar inquisidor com a plenitude de saber quem somos.  No final das contas, como diz a própria Iris:


"É melhor ser feliz do que bem vestida."


Beijos, Carols