Empreendedorismo: substantivo masculino. 1) disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios. 2) inciativa de implementar novos negócios ou mudanças em empresas já existentes, ger. com alterações que envolvem inovação e riscos. Palavra mágica do século 21.
Há tempos eu queria trazer este assunto ao blog, mas por ser uma "conversa" demorada, sempre fui deixando para depois. Dia desses eu e outras garotas envolvidas com moda, fomos convidadas pelo Senac Rio para participar de um debate sobre empreendedorismo no mundo da moda. Nós seríamos os "exemplos" de jovens que resolveram entrar no mundo mágico da carreira a solo, na estrada da liberdade e do sucesso. O que o evento queria propor era justamente uma troca de experiências, uma conversa para debater as dores e as delícias de se empreender na área de moda. Mas independente da área, ~empreender~ virou o grande must-do da nossa geração, tão ávida por tomar as rédeas da própria existência. Todo mundo, de repente, quer largar tudo e trabalhar com o que ama.
Por isso resolvi vir aqui, compartilhar com vocês minha nova vida de "empreendedora", dona de um
pequeno e-commerce de moda e mostrar a realidade do jeitinho que ela é, desvendando os mitos e verdades desse universo paralelo. (e isso serve para qualquer tipo de negócio, mas eu vou falar sobre moda, ok?)
SONHO X REALIDADE
A primeira análise de todas para quem vai empreender é identificar exatamente o que é um possível delírio seu, do que é a realidade. Eu quis trabalhar com estampas, mas como não tinha experiência, não ia conseguir entrar com facilidade no disputadíssimo mercado da estamparia, então eu mesma cavei minha oportunidade e criei uma marca cujo foco é a estamparia aplicada a roupas simples e descomplicadas. Porém delirei quando achei que minha vida seria recheada de inspirações, arte, pintura. Delirei quando achei que ia fazer estampas todos os dias, desenhar roupas, ter tempo para criar, pensar em modelos e ver tudo isso concretizado em tempo recorde. Na verdade eu faço tudo, menos estampas e essa é a parte mais frustrante de todas.
O sonho: desenhar estampas. A realidade: carregar sacola de tecido.
Criar estampas ocupa cerca de 10% do meu tempo de trabalho na Prosa e os outros 90% são tudo o que eu tenho que fazer para essa estampa chegar à casa do cliente: escolher o tema da coleção, os tipos de tecidos e impressões, os aviamentos, fazer pagamentos, contactar fornecedores, mandar modelar, pilotar, cortar, costurar, conferir acabamentos, passar roupas, ensacar produtos, embalar pedidos, etiquetar caixas, fotografar produtos, tratar as fotos, fazer newsletters, alimentar as redes sociais, responder emails,
carregar MUITAS sacolas de pano, de corte, de moldes, de amostras, entre outras besteiras pelo meio do caminho. A menos que você seja uma pessoa muito organizada (não é o meu caso), com uma sócia/equipe que consiga suprir justamente o que te falta (não é o meu caso), com uma grana sem fim para investir (não é o meu caso) e um plano de negócios super estruturado (não é o meu caso), em geral
o tão sonhado sonho de só fazer estampas, é um delírio que passa bem rápido. Nem entrei no mérito das questões burocráticas de ter uma marca funcionando, como CNPJ, alvarás, contadores, de encontrar mão de obra qualificada e sem exploração, de trabalhar com gente honesta e cada vez mais rara, etc, etc.
COMPLEXO DE SHIVA
Vocês já ouviram falar em Shiva? Shiva (deus da destruição e regeneração) é um dos deuses hindus que compõe a "santíssima Trindade" do hinduísmo, junto com Brahma (deus da criação) e Vishnu (deus da preservação). Esse papo todo é só para ilustrar o que quero dizer. Shiva é um deus de 4 braços, responsável por gerar fortes transformações físicas e emocionais. E a figura dele traduz muito bem o que acontece com nosso corpo quando resolvemos empreender.

Depois que você identifica que o que você MAIS ama fazer é o que você MENOS faz, você descobre que, para empreender você PRECISA saber fazer um monte de coisas. E o que não souber, você PRECISA APRENDER. Não tem pra onde. Pra quem está começando, como eu, que trabalho sozinha ou com a mamis, é impossível ter $$ para pagar uma equipe. No mundo dos sonhos você vai encontrar uma super equipe de sócios, cada um com sua especialidade, e vocês serão felizes para sempre. No mundo real, quanto mais sócios, mais gente para dividir o bolo miserável que money que vai entrar na empresa. Isso significa que: caso você more na casa dos seus pais ou dependa de alguém, é ok dividir o money. Caso você seja sozinha no mundo, tenha um teto e contas para pagar (meu caso), cada centavo conta e você não pode se dar ao luxo de contratar alguém pra dividir "o bolo". Você vai ter que transformar seu corpo e sua mente para dar conta de tudo. Isso é o complexo de Shiva (que eu acabei de inventar). Você vai ter que cumprir mais tarefas do que consegue e toda a destruição física que você vai sentir, vai te trazer uma força regeneradora, uma certeza de que, se você não é um deus, você está perto disso...algo tipo McGyver. Há males que vêm para o ótimo.
Eu sempre fui criativa, sempre trabalhei com criação e nunca saí dessa área. Se por um lado eu tenho uma desenvoltura para orquestrar o visual da minha marca, das minhas estampas, por outro lado eu sofro para concretizar essas criações. Sofro para tirar as ideias do papel. Dentro de uma agência de publicidade, esse papel é do produtor. Esse ser humano maravilhoso que executa o que você imagina. Na moda essa mesma função existe e eu fui obrigada a aprender na tapa e no choro. Hoje, além de criar as estampas, eu tenho que entender minimamente de corte e costura para poder tocar a produção das roupas. Tenho que saber pedir que tipo de bainha eu quero, se quero o corte em viés, em godê ou reto. Quanto de pano cada peça gasta, se vale a pena produzir ou não certas peças. Tenho que entender de tecidos, composições, caimento, tipos de impressão. É um universo totalmente novo pra mim e, confesso, angustiante. Por que não é fácil encontrar fornecedor para cada coisinha que você quer fazer. Aí falta tecido. Aí a outra não costura malha. Aí fulano não te entrega a impressão. Aí o prazo já foi pras cucuias. E assim você vê uma estampa que leva um dia pra ser feita, demorar 6 meses pra ser vendida.
A PACIÊNCIA É UMA VIRTUDE NECESSIDADE

Depois que você virou multitask, deusa da destruição, mata na unha todos os perrengues, desenrolada os paranauê mais cascudos, você enfrenta o mais desesperador dos desafios:
o tempo. E pro tempo não existem deuses. Criar uma coleção é lindo.
Vê-la pronta é um sufoco e é preciso ter uma paciência budista para aceitar que seu tecido não vai ser impresso em menos de 30 dias. Que sua costureira não vai entregar as peças em menos de 2 semanas. Que sua modelagem não vai ficar pronta em 1 dia. Que sua micro-empresa não vai te dar um lucro maravilhoso em 1 ano. Que sua conta bancária não vai ficar positiva por um bom tempo.
Para tudo isso é preciso exercitar diariamente a paciência. Eu já perdi as contas de quantas vezes me descabelei por não ter produto em pleno dezembro por que o fornecedor não entregou os tecidos, por perder timing de lançar coleção, por ver costureira LITERALMENTE f*dendo uma produção inteira e perder essa produção e não ter $$ para reinvestir. E eu só tenho 1 ano de loja
Prosa.
Até todos os ponteiros estarem acertados, até você encontrar uma equipe terceirizada (por que eu não posso contratar, rs) que seja incrível e comprometida,
é um osso duríssimo de roer. Nem todo mundo tem dentes para aguentar e cada vez que você pensar em empreender, você tem que se questionar se você tem estrutura maxilar para aguentar o tranco.
AGORA SIM, VOU FAZER MODA!
Aí você chuta o pau da barraca, se joga no mundo e decide "criar moda". A verdade é que o mundo (e o Rio de Janeiro especificamente) está cheio de gente querendo "criar moda". Mas tudo isso que a gente vende é roupa, um artigo tão necessário e ao mesmo tempo tão supérfluo, por que tudo já foi inventado e ninguém mais precisa de roupa. Então empreender num negócio de moda é saber que você vai ter que encontrar algum diferencial muito f*da para oferecer aos seus clientes. Seja experiência de marca, seja qualidade absurda do produto, seja exclusividade extrema, seja preço, não importa. 46% das pequenas empresas de moda no mundo fecham suas portas no primeiro ano de funcionamento não por falta de estrutura, investimento, ou qualidade nos produtos/serviços, mas por falta de DIFERENCIAL. É um percentual muito alto e é esmagador tentar sobreviver nesse cenário. Quando eu criei a Prosa eu só queria um plano b para a minha vida, uma válvula de escape para fazer um trabalho mais pessoal e intuitivo, mas não sabia bem o que eu ia vender, além de estampas. Aos poucos eu fui encontrando um caminho e entendi que precisava vender histórias em cada estampa. Sempre gostei de escrever, então encontrei no design de estamparia uma forma de criar outros tipos de texto. Mas até encontrar esse ponto, eu sofri com a completa falta de rumo, me achei incapaz, incompetente e frustrada. Em tempos de fast-fashion e produção alucinante, é um diferencial vender algo tão pessoal. Ainda que seja...roupa.
BÚSSOLAS DESGOVERNADAS
Empreender é como descer um rio agitado: você até pode saber nadar, mas a correnteza te desgoverna de um jeito, que você começa a perder a fé no rumo e em si mesmo. Quantos % você acha que a Prosa vai crescer nos próximos anos? Não sei. Quanto você coloca de margem de lucro nos seus produtos? Não sei. Quanto de prejuízo você tem em cada coleção? Não sei. Vou fazendo tudo na intuição e aprendendo com as quedas, por que nasci sem bússola. Mas caso você seja um ser humano iluminado, planeje bem sua marca antes de lançar. Não faça como eu, que em 5 meses larguei meu emprego pra viver de "estampas" e estou aqui escrevendo esta epopéia dramática. hahahahaha Mas que fique claro: nem tudo também são espinhos, afinal eu estou escrevendo este texto no meio do "expediente". :D
SENTA E CHORA
Puxa uma cadeira e senta comigo.
Empreender parece lindo e audacioso, principalmente quando você tem uma fonte de renda fixa pagando suas contas (seja um emprego em paralelo ou a família ajudando) ou pode empreender fora do expediente, como se fosse um ~projeto pessoal~ super bacana. Mas quando o empreendimento vira seu ganha pão, senta e chora. Chora comigo, por que eu já chorei muitas noites. E acordei chorando outras tantas manhãs. E muitos cabelos caíram. Por que é tão mais fácil ser diretora de arte, um trabalho que eu fazia há 10 anos, que sentava na mesa e sabia o que fazer, que cada departamento cuidava de uma coisa, que o caos era de certa forma organizado...mas não. Empreendedores escolhem caminhos difíceis e nem sempre é por coragem ou talento. Às vezes é por necessidade. Mesmo quem tem todo o apoio familiar, come o pão que o demo amassou pra ver seu negócio decolar. Mas acredito que, quem não tem esse apoio, tem mais tendência a cair em desespero, por que não sabe como vai pagar o aluguel mês que vem. E aí entra outra questão importante:
MAS O DINHEIRO É MEU!
A gente sempre pensa que, quando trabalha feito um condenado num emprego qualquer, estamos promovendo apenas a riqueza alheia, enchendo os bolsos dos chefes. Trabalhar para si mesmo é ter a certeza que todo seu esforço de horas extras e noites sem dormir, vai reverter em dilmas nas nossas carteiras. Ledo engano. Vou jogar a real: minha costureira ganha mais do que eu. Por que todo o dinheiro que entra na Prosa, vira conta pra pagar, tecido pra comprar, alvará dos infernos, imposto de não sei o quê, impressão de tecido jogada fora. E todo mês é preciso apertar o cinto financeiro por que pode ser que mês que vem não venda bem e aí as contas continuam chegando e a máquina não pode parar. Então, desde que larguei o emprego em agosto de 2014, eu não sei mais o que é ter dinheiro na carteira. Continuo sem ganhar hora extra, mas agora, em vez de um salário fixo bonitinho caindo na minha conta, eu tenho uma incerteza constante roendo meu fígado.
COMO É BOM TER ALPISTE
Esta foi uma das tirinhas mais legais que vi nos últimos tempos.
Empreender é uma palavra mágica, que tem feito muita gente correr em busca da sua liberdade, mas a realidade joga duro: ter alpiste todo dia é bom demais. Nada compra sua liberdade de escolha, seu futuro não tem preço e
empreender pode ser uma grande aventura em busca de si mesmo. Mas também poucas coisas na vida são tão tranquilizadoras como ter um salário bacana todo mês, um plano de saúde pago pela empresa, férias remuneradas, domingos e feriados e um décimo terceiro brilhante para chamar de seu.
Quem empreende tem que ter uma certeza em mente: acabou a mamata. Se por um lado você pode se dar ao luxo de acordar às 10 da manhã pra trabalhar e pode até arriscar ir pro Starbucks fazer estampa naquele 10% de tempo, por outro você não sabe quando vai tirar férias novamente, se terá $$ pra continuar pagando o plano de saúde. Muito menos você poderá contar com seguro-desemprego, ticket alimentação e vale-transporte. Adoecer? Esquece. E se você precisar contratar alguém, você vai ter tantos encargos fiscais, que vai entender (em partes) por que é que uma empresa suga o máximo que puder do trabalhador. Nem o aluguel que você pagava numa boa quando tinha salário fixo, vai ser pago "numa boa" depois que você vê a dificuldade que sua empresa tem para conseguir aquele dinheiro. Tudo toma uma dimensão completamente nova e seu relacionamento com o valor do dinheiro e, principalmente, do trabalho, muda drasticamente. Shiva agindo.
ONLY THE BRAVE?
Não, empreender não é só para os corajosos. Empreender é para os que estão de saco cheio e querem um caminho alternativo também. Empreender é para quem, como eu, queria mudar de área, mas não podia ser estagiária novamente numa profissão nova, por que tinha contas para pagar. Empreender é para quem precisa inventar um novo caminho para si mesmo a todo custo. O caminho pode até não ser definitivo, mas muitas vezes é necessário. Apesar de ter crescido entre rolos de tecido e gostar de moda, eu caí de paraquedas numa área que eu não domino. A coragem não precisa ser um traço da sua personalidade (meu caso, já que não me considero corajosa), mas precisa BROTAR a qualquer custo, se você quiser continuar em pé.
VOLTANDO ATRÁS
Depois de toda essa saga vocês acham que eu voltaria atrás na minha decisão?
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SIM. Não por arrependimento, mas por que uma das principais características de quem quer empreender é não ter apego ao negócio. Tentou pra cacete, se matou de trabalhar e não deu certo? Começa de novo, outro caminho, sem choro, empreender é arriscar. Abre suas próprias portas e vai, ou volta. Qual o problema? Eu voltaria a trabalhar com propaganda, voltaria a trabalhar em agência, se acreditasse na filosofia da empresa. Não tenho o menor problema em mudar de caminho quantas vezes forem necessárias para que eu seja feliz. Não é a moda ou a estamparia ou a criação publicitária que definem meus passos profissionais, é o quanto aquele projeto me desafia e fascina. Portanto, se hoje a Prosa falisse, eu ia continuar minha vida tranquila e calma por que, apesar de chorar tantas noites, meu desespero é passageiro e eu sou motorista dessa locomotiva. (piada infame! hahaha).
MAS EMPREENDER VALE A PENA?
Por fim, o que tenho a dizer é: empreender vale a pena. Nem que seja pra você sair da sua zona de conforto por um tempo e aprender coisas novas. Acho que foi um importante passo de amadurecimento pra mim. O fracasso é garantido, mas o sucesso só acontece para os que tentam e é inevitável para os que persistem e sabem o trabalho que estão desenvolvendo. Daqui a uns anos eu espero olhar para trás e dar risada deste texto. Espero escrever sobre como toda a glória valeu cada lágrima. Mas mesmo que o sucesso estrondoso não aconteça, mesmo que eu não atinja o conforto financeiro, eu mudei meu caminho e fui atrás da felicidade. E ela pode nem estar aqui, nessa vida de empreendedora de moda, mas foi aqui que eu comecei a buscá-la e é isso que importa.
Espero que vocês tenham gostado do mega-texto de hoje. hehehe Foi cansativo ou de boa? Caso vocês tenham mais dúvidas, coloquem aqui nos comentários, que eu tentarei fazer um vídeo mais completo! O que acham? :D
Beijos, Carols