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Moda acessível?

17 março 2015

Recentemente fiz este post aqui no blog, respondendo a dezenas de perguntas de leitoras e seguidoras e grifei em vermelho uma pergunta em particular, que prometi responder com calma e detalhadamente:



@misscriacao: Carol, agora que você lançou sua marca e fez curso de estampas e tomou conhecimento do processo de criação, você continua defendendo uma moda mais acessível?

Quem acompanha o blog sabe que há uns tempos escrevi um texto mais ou menos sobre esse assunto (que vocês podem encontrar neste link aqui), mas resolvi responder a esta questão de forma mais específica. Há anos que venho trazendo para o Small um conteúdo pautado no uso de uma moda acessível e de como podemos ser mais criativas/ousadas/irreventes/fashion mesmo usando roupas de departamento. Porque, como já disse, estilo é igual casamento: na riqueza e na pobreza. Então, não sendo ricas, temos que trabalhar dentro das possibilidades da nossa realidade, sem neura, sem regras e com um olhar super apurado.


Depois de passar anos consumindo o que a moda me oferecia, eu decidi explorar o outro lado da moeda: oferecer moda. Já falei aqui que minha mãe sempre costurou e vendeu suas roupas, mas eu enveredei por um caminho diferente, que envolve todo o processo de produção de uma peça de roupa, desde a criação da estampa, do tecido, até o desenvolvimento e venda de uma coleção. Um trabalho ardiloso, cheio de percalços. E sim, posso dizer que hoje eu tenho dificuldade em defender a dita "moda acessível", porque sei o quanto é inacessível produzir moda no Brasil. 


Isso não quer dizer que eu tenha abandonado essa busca por uma moda mais, digamos, democrática. Continuo sim comprando roupa barata nas lojas de fast-fashion por falta de verba, mas além de não ser um consumo justo com meu próprio trabalho (que ironia), cada peça que eu compro numa loja de departamento, eu tento imaginar o quanto aquela rede pagou para produzir aquilo em quantidades industriais fora do país e por quanto eu produziria aqui, em pequena escala, em território nacional. É uma concorrência muito desleal e por isso decidi que o melhor é gastar minha energia criando algum diferencial para a minha marca, ao invés de chorar as pitangas de não poder competir com esse tipo de produção. É claro que é desestimulante saber que o metro de viscose estampada da tal loja custa uns R$ 5 (no máximo!!!) e o preço da minha viscose estampada exclusiva custa entre R$ 29 e R$ 52 o metro, mas o que eu posso fazer? Sentar e chorar? Comprar qualquer tecido estampado da China e perder justamente a única coisa que diferencia minha marca de qualquer outra? Definitivamente não é esse o meu plano.


moda acessivel via


Para mim, hoje o conceito de "moda acessível" é uma via de mão única: o consumidor tem acesso a esse gigantesco mercado de produtos baratos (fast-fashion, ebay, aliexpress, etc), mas o pequeno produtor brasileiro não tem acesso à capacidade de produzir suas peças com qualidade e preços competitivos e, por isso, não sobrevive no mercado por muito tempo. A carga tributária altíssima que permeia toda a cadeia de produção é repassada para o cliente a preços que, nem de longe, são comparáveis a uma loja de departamento. Inclusive arrisco dizer que marcas novas que praticam preços baixos demais, em algum momento vão fechar suas atividades porque simplesmente seus lucros não vão cobrir a inflação galopante dos seus custos. (acreditem, muita gente abre uma marca sem saber fazer essa conta!)


Então, por mais que eu consuma a moda dita acessível, eu não tenho como criar essa moda acessível (que controverso!), muito pelo contrário: me vejo todos os dias debatendo formas de baratear custos de produção para criar peças com preços "dignos" e esbarro na enorme parede dos custos altos (e sempre subindo!) de ter uma marca no Brasil: aluguel, costureiras BOAS (cada vez mais caras e mais raras), tecidos, impressões, cortes, modelagens, fornecedores, provas que dão errado, máquinas industriais, energia que aumenta, transporte, etc, etc, etc. Uma série de despesas que não passam pela cabeça de quem está do outro lado da moeda consumindo a "moda acessível". Um lado no qual continuo até hoje, porque é o que posso consumir, mas sobre o qual agora tenho uma consciência que me entristece.


Beijos, Carols