Mostrar mensagens com a etiqueta Processo Criativo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Processo Criativo. Mostrar todas as mensagens

(Very) Slow Fashion

26 maio 2015
Dia desses dei uma entrevista para uma aluna da PUC, sobre o processo criativo da Prosa e resolvi compartilhar aqui o teor da conversa, já que muitas de vocês gostam de posts mais aprofundados sobre o tema moda. O assunto foi Slow Fashion, um conceito que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo de quem cria e produz moda. Para contextualizar vocês, slow fashion é um termo que, como o próprio nome indica, corresponde a um movimento de desaceleração da moda, a busca de uma moda mais lenta, digamos assim, que se opõe ao conceito e fast-fashion que nós conhecemos tão bem. Ronaldo Fraga é um dos estilistas brasileiros que aderiu a essa forma de trabalho, mas na Europa o conceito de slow fashion já é bem mais difundido que no Brasil e muitos designers ganham o pão nosso de cada dia sem precisar entrar na loucura de um mercado ansioso.

A ideia principal é de que o processo criativo deve respeitar algumas características que deveriam ser essenciais à produção de uma moda com qualidade: valorização da mão de obra artesanal, o uso de materiais naturais e recursos sustentáveis, a migração da produção industrial em larga escala, para a confecção em pequenos ateliês, enfim, a humanização do processo de produção como um todo, visando uma produção mais consciente e com muito mais qualidade. Se por um lado o custo dessa produção é dispendioso e gera produtos mais caros para o consumidor, por outro estes produtos são mais duráveis e chegam ao mercado com uma qualidade infinitamente superior, além de serem produtos feitos com carinho e o maior respeito pelos profissionais envolvidos.

Eu acredito que o Slow Fashion é um movimento urgente e necessário para dar fôlego a uma indústria ultra-saturada, frenética, consumista, que está beirando o colapso nervoso. Eu mesma já parei de prestar atenção a todas as coleções que entram nas lojas a uma velocidade que nem meus olhos nem meu bolso conseguem acompanhar. Com cada vez menos tempo para criar, modelar, pilotar, costurar uma coleção, e com cada vez mais demandas do consumidor por novidades, o que acontece com quem cria para o mercado de moda, é uma necessidade de produzir roupas como se fossemos padaria: 2 fornadas por dia. E o que acontece com o consumidor? Ele não consegue mais discernir sobre o que ele realmente deseja e acaba enchendo os armários de peças que duram pouco mais de 2 meses, alimentando um pequeno monstrinho insaciável dentro do bolso.

E nessa história a gente não sabe quem incentiva mais a loucura: o consumidor sedento de novidades instantâneas e 20 coleções por ano, ou as marcas que trabalham nesse ritmo alucinante, alimentando a neurose das pessoas. O fato é que hoje, com uma loja online, eu percebi que tentar sanar essa euforia consumista enchendo a loja de novidades toda semana é, além de uma tarefa impossível, uma verdadeira exaustão sem fins lucrativos. Por que novidade o tempo todo não quer dizer venda. Mas ter tempo para preparar boas novidades, isso sim dá certo. :)

 


Fotos da primeira estampa de inverno da Prosa, que ainda está em produção. A inspiração no gibão dos cangaceiros nordestinos serviu de estética para a montagem das estampas de encaixe.


E é por isso que as coleções na Prosa demoram tanto a sair: por que somos apenas 4 pessoas (eu, mamãe e duas costureiras não fixas) para dar conta de todo o processo: da criação, à venda, passando pelo design das estampas, escolha dos tecidos, impressão, modelagem, corte, pilotagem, acabamentos, costura, fotografia, redes sociais, vendas, correios, emails, etc. No começo a gente entrou nessa neurose de querer criar coleções o tempo todo, mas agora percebemos que nosso ritmo é mais lerdinho mesmo, até pela falta de mão de obra.

A gente faz tudo com calma, com tempo pra testar vários acabamentos, vários tipos de tecido, várias impressões, várias modelagens. É bem verdade que às vezes dá um nervoso de não ver a coisa pronta VERY FAST, mas a gente respira e segue em frente com a velocidade que a vida nos permite. No final das contas, além de ficarmos bem mais felizes com o resultado final das peças, temos mais controle sobre a nossa produção, ainda que ela não chegue à loja 5 meses antes da estação para a qual ela foi criada.

E vocês, o que acham desse assunto? A moda precisa desacelerar ou tá bom 5 coleções por mês nas lojas? hehehe

Beijos, Carols

Criação de Coleção

09 março 2015
Finalmente arrumei tempo para escrever um post que muita gente já me pediu aqui no blog: como montar uma coleção de moda! O post vai ser longo, então eu aviso logo que é preciso paciência pra ir até o fim. hahahaha

Como muitas de vocês sabem, eu sou formada em publicidade e propaganda e entrei no "mundo da moda" pelo blog. Ok, fui criada no meio dos tecidos, mas mamis também não tem formação de moda, então sempre foi um mundo da moda meio amador. Até hoje temos dificuldade em organizar uma coleção e confesso que tudo o que eu faço é uma mistura de intuição, observação e minha própria experiência como publicitária. É que moda e publicidade têm uma coisa muito particular em comum: ambas precisam vender mais do que um produto, uma ideia. 

Este fim de semana eu fiz um Workshop de Desenvolvimento de Coleção no Instituto Rio Moda com a Alessandra Marins que, além de ser um doce de pessoa, tem uma vasta experiência em consultoria de moda no Rio de Janeiro e participa ativamente deste mercado. Fiquei super feliz em constatar que o que eu andava fazendo na Prosa era mais ou menos o que deveria ser feito na hora de criar uma coleção. Porque o processo criativo, seja ele qual for, tem algumas etapas básicas que não mudam muito de uma área para a outra.

BRIEFING

O primeiro passo é saber para quem estamos criando. Em propaganda esta etapa tem o nome de briefing. No meu caso eu crio para a Prosa, uma marca muito novinha, que ainda é difícil definir um parâmetro de público. Mas para vocês compreenderem melhor, vou dar o exemplo que utilizamos no curso: Enjoy. A Enjoy é uma marca carioca, direcionada para uma mulher mais madura, na casa dos 38 anos, com filhos jovens e que se sente jovem também. Ela curte natureza, saúde e bem estar, mas é super urbana e prioriza looks ultraconfortáveis e versáteis. Em relação à marca em si, a Enjoy se identifica como uma marca colorida, que sempre utiliza elementos da natureza seja na estamparia, seja na composição das fotografias de campanha ou lookbook. Com estas informações nós tivemos que montar um moodboard de coleção para a equipe de marketing e branding avaliar nossas propostas.



BRAINSTORM

Aí começa a parte legal do processo criativo. Do mesmo jeito que acontece na publicidade, o brainstorm é a etapa que inicia a discussão de ideias para uma coleção de moda. Nosso grupo analisou a coleção atual da Enjoy e resolveu que a próxima coleção deveria ser mais leve, ter mais elementos da natureza, mas mantendo essa aura contemporânea da mulher moderna. Todo mundo foi jogando ideias na mesa e chegamos a uma ideia em comum: poderíamos inspirar nossa coleção em Inhotim, um museu de arte contemporânea que tem uma arquitetura super urbana, mas está inserida numa natureza exuberante. Foi sobre esse conceito de dualidade feminina, de força e delicadeza, que começamos a buscar referências e a construir nossa ideia de coleção.



PALETA DE CORES

Alessandra, nossa facilitadora no curso, nos deu uma espécie de passo a passo para a montagem da coleção, mas frisou que cada profissional tem seu próprio método criativo e que esse método vai sendo descoberto, aprimorado, lapidado com o tempo. Existem várias formas de se começar a criar uma coleção: vocês podem começar a partir de uma paleta de cores, de algum tecido específico, de determinados tipos de acabamento e bordados, de uma estampa, enfim. Os pontos de partida podem ser variados. Nós escolhemos começar pela definição da cartela de cores. Confesso que, para mim, esse é um passo que simplifica o resto do processo. Eu sempre comecei pelas estampas e acabei tendo dificuldade em coordenar minhas estampas com outros tecidos disponíveis no mercado, porque não encontrava cores que combinassem. Agora resolvi que sempre vou começar pelas cores e depois desenvolvo as estampas na paleta definida! hehehehe Então nós buscamos elementos de Inhotim para construir nossa paleta de cores e voilá!

Algumas obras do museu serviram de inspiração para definirmos as cores base da coleção. As obras de Yayoi Kusama, Adriana Varejão, Matthew Barney, Hélio Oiticica, entre outras, foram alguns pontos escolhidos para virar cor e estampa. As cores de base são aquelas que predominam em toda a coleção e é pensando nelas que devemos coordenar a combinação de tecidos lisos e acessórios, por exemplo. Ok, não existe uma regra obrigatória para isso, mas é mais fácil criar a harmonia da coleção se atentarmos a esses detalhes.

FORMAS E TECIDOS

As cores de base foram escolhidas e aí passamos a definir que tecidos poderiam traduzir nossa "mulher Inhotim". Como a coleção inteira foi construída em cima da dualidade de força x delicadeza / urbanismo x natureza, entendemos que essa dualidade teria que ser traduzida nos tecidos e formas da coleção. Escolhemos então trabalhar com um mix interessante: linho x seda / viscose x tricô. Em cada look seria explorado esse equilíbrio entre peso e fluidez. A ideia foi manter sempre o conforto da marca e explorar formas mais sequinhas, sofisticadas, sem deixar de ter aquela leveza e despojamento cariocas.



DETALHES E TEXTURAS

Depois de definirmos as cores e os tecidos, passamos para a etapa de estabelecer o mood dos detalhes da coleção. O que poderia traduzir essa mulher moderna, mas com um toque de natureza? Sofisticada, mas com uma simplicidade natural? E aí fomos buscar referências (pinterest é o melhor lugar pra isso!) de acessórios que pudessem traduzir essa dualidade. Escolhemos peças que unem design sofisticado com elementos rústicos como madeiras, tramas, palhas, etc. O Brasil é um país com uma identidade muito forte de manufatura e artesanato, então pensamos que seria incrível adicionar detalhes artesanais na nossa coleção, mas de forma ultramoderna. E este foi o nosso moodboard de inspiração: temos bolsa de palha e colar de madeira, mas com uma roupagem sofisticada.




ESTAMPAS

Por fim, chegamos à parte das estampas! Estampa é uma coisa difícil de se trabalhar, porque tem que conversar muito com a alma da marca, sem deixar de seguir algumas tendências da moda, afinal o produto precisa ser desejado e vendido. Então para mim, que crio estampas, nem sempre é fácil fazer algo dentro de um briefing fechado, mas no caso da nossa coleção inspirada em Inhotim, o trabalho ficou bem interessante. O que fizemos? Exploramos as tendências sem cair no lugar comum. Este ano o verde militar vem com tudo. Temos verde militar. As bolas vem com tudo. Temos bolas. As estampas geométricas (sempre) vem com tudo. Temos geometria. Os florais nunca deixam de faltar em todas as estações. Temos florais. Mas desenvolvemos essas tendências usando as obras de Inhotim como inspiração máxima, sempre respeitando a paleta de cores!

 

Estas não seriam as estampas finais, ok? hehehe era só uma ideia do que poderia ser desenvolvido tomando as obras como ponto de partida.

RELEASE

E é isso! Criamos uma ideia de coleção, estabelecemos cores, texturas, tecidos, mas principalmente criamos um conceito que precisa ser vendido. E o primeiro passo para uma coleção ser aprovada, é vendê-la dentro da própria empresa. A equipe de estilo precisa encontrar argumentos para vender aquela história que foi criada e esses argumentos vão vender a coleção para o consumidor final através de materiais como o release. Sim, no curso criamos até o release da nossa coleção! Um textinho que "explica" a coleção, as inspirações, os moods criativos, e que serve para os veículos de comunicação analisarem a coerência do que é apresentado. Claro que muitas marcas (principalmente as que estão começando) não conseguem chegar nesse nível de detalhamento, mas é interessante o exercício de colocar em palavras conceitos tão visuais. Ler o release a todo momento, nos ajuda a manter o foco na essência da coleção e excluir possíveis pontos fora da curva.



Por fim, vamos lá apresentar a coleção e esperar que ela venda. hehehehe Este post é um passo a passo bem básico e não rígido de como criar um conceito de coleção, mas é claro que o processo todo é muito mais trabalhoso e envolve bastante pesquisa não só de referências bacanas, como de macrotendências, microtendências em várias esferas das artes visuais como a arquitetura, a escultura, a fotografia etc. A moda é uma dessas matérias em que todos os eventos humanos são fonte de interferência e inspiração e guiam processos criativos. No nosso caso, Inhotim foi uma micro inspiração para tudo: desde a concepção das cores e dos materiais, até a ideia de usar as obras do local como cenário para o shooting da "campanha", mas está inserido numa macrotendência chamada Wild, que vimos no curso, que explora conceitos como liberdade, natureza, selvagem, etc. Olhando assim, parece simples, mas o processo entre criar uma coleção e tê-la de fato nas lojas, pode levar até 2 anos para ser concretizado e muitas marcas trabalham com toda essa antecedência (ainda não é o caso da Prosa, kkkkk). Num próximo post sobre o assunto, vou detalhar para vocês esse "cronograma" de produção de coleção, baseado na minha minúscula experiência com a Prosa. Tenho certeza que vamos poder trocar informações valiosas!

Tcharamm! Ufa. Que postzão. Gostaram deste tipo de conteúdo? Depois deste curso, fiquei interessada em fazer alguma pós-graduação na área de moda, seja de branding, ou marketing, ou estilo, não sei. Alguém tem dicas de pós-graduações interessantes? :D

Beijos, Carols