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sobre roupas e decisões

22 dezembro 2015
Falávamos sobre como a vida adulta é cheia de pequenas dificuldades e inúmeras decisões desimportantes, quando meu namorado virou pra mim e falou: "amor, sabe por que os grandes homens de negócios vestem todos os dias a mesma roupa? aquele terno, gravata e camisa branca? Pra não ter que lidar com decisões fora do trabalho." Naquele momento eu não sabia dessa informação - depois encontrei uma matéria sobre o assunto - mas foi como se uma verdade gigantescamente óbvia estivesse caindo no meu colo.

Mas como assim, vestir a mesma roupa? Vamos lá: Steve Jobs = camisa preta e calça jeans. Mark Zuckerberg = camiseta cinza e calça jeans. Karl Lagerfeld = blazer preto, camisa branca e óculos escuros. Michael Kors = blazer preto, camisa preta e calça jeans. Estes são só alguns exemplos, mas existem muitos outros. Usar sempre roupas iguais pode parecer uma falta de criatividade imensa, mas se pararmos para pensar na quantidade de coisas que podem ser transformadas na nossa vida só pelo fato de  não termos que decidir o que vestir, aí a ideia muda de figura.

1) A primeira de todas é uma óbvia assinatura de estilo. É inegável que a repetição se transforma em marca pessoal e a gente acaba sendo reconhecido por aquilo. Eu, por exemplo, uso tanta saia midi que é como se qualquer outra roupa/comprimento não fosse mais a minha cara. É como se, ao encontrarmos nossa assinatura de estilo, a gente tivesse encontrado a formulinha que dá certo e isso traz um certo conforto na alma.

2) Quando usamos sempre a mesma roupa (lavando, claro!), diminuímos muito o tempo que gastamos com tudo que envolve a manutenção de um armário com muita variedade. Economizamos tempo para escolher a roupa, para comprar algo novo, para lavar, passar e organizar o que temos. E como o tempo é algo cada vez mais valioso para nós, gastá-lo com essas pequenas decisões acaba gerando minúsculos estresses que se acumulam com o passar do tempo. Parece exagero né? Mas digo por experiência própria que já perdi as contas de quantas vezes gastei muito tempo escolhendo uma roupa, depois trocando, depois sofrendo por achar que não tinha nada pra vestir, depois saindo pra comprar algo novo pra tal festa imperdível, e aí comprei também um sapato pra combinar e quando percebi tinha torrado horas (e dinheiros!) valiosas do meu dia em busca de uma roupa que usei apenas uma vez. Acontece com todas nós.

3) Roupas iguais, armário enxuto. Por isso que a ideia do armário-cápsula está fazendo tanto sucesso. Tem coisa mais prática do que você ter apenas 37 peças de vestuário (contando sapatos!) com que se preocupar? Isso gera menos consumo, menos estresse e mais economia.

4) A partir do momento em que você decide limpar sua vida de peças supérfluas e focar em utilizar bastante tudo o que você tem, repetindo seus looks até a exaustão, você começa a optar por comprar peças de mais qualidade, mais bem acabadas, melhores tecidos, por que sabe que o preço vai compensar a durabilidade daquele item e assim você vai parar de comprar blusinha de quinta categoria na fast-fashion mais próxima.

Resumindo: você economiza tempo, dinheiro e paciência.

Mas aí a gente pensa: poxa, vestir sempre a mesma coisa? Que boring! Até parece falta de criatividade! Mas, como profissional criativa, que sempre trabalhei nessa área, eu posso afirmar uma coisa pra vocês: criatividade demanda tempo, não brota em árvore, dá trabalho e, por isso, às vezes é importante ter um "setlist" de looks repetidos para nos salvar de um dilema que, na real, não precisaríamos ter. É claro que isso não quer dizer que você vai deixar de ser fashionista e virar molambenta (apesar de você poder fazer isso, se quiser) e sim que você vai selecionar BEM melhor tudo que entra no seu armário pra não ter crises de indecisão.

Longe de mim querer me comparar a Steve Jobs, né gente...mas quando eu resolvi adotar um estilo mais "minimalista", foi pensando em simplificar minha existência fashion e diminuir a quantidade de roupas (e decisões!) que acumulo. Explico: sou libriana e, por mais que pareça ridículo, acredito muito que minha personalidade é incrivelmente regida pela minha conjuntura astral cada um com suas crenças. kkkkkkk. E por ser libriana, tomar decisões pessoais (minhas decisões profissionais são regidas pelo meu ascendente em capricórnio! kkkkkk) é tipo o pior pesadelo da minha vida. Cardápios de restaurante são como maçaricos queimando meus olhos. O pavor é tanto que eu paraliso diante de decisões ridículas como "comer sorvete de tapioca ou pistache?" Por esses motivos, me vestir também se tornou uma fonte enorme de angústias, além de muito tempo gasto trocando de roupa, odiando, desistindo.

O fato de ter um blog onde exponho o que visto também não ajuda muito nesse processo de decisões fashion porque, de alguma forma, eu me sinto na missão de trazer ideias legais pras minhas leitoras, looks inspiradores, ousados, arrebatadores (na medida do possível da minha realidade financeira kkkk) e nem sempre um basiquinho é meu ideal de inspiração. Na verdade o basiquinho, normcore, minimalista está longe de ser o tipo de "moda" que faz meu coração bater mais forte, mas foi esse o caminho que eu encontrei para economizar tempo e angústias na minha vida. E, apesar de não ser o estilo que faz meus olhos cintilarem, é com certeza o que mais me tem feito feliz.


Fotos: mamain <3

Então, para ilustrar todo esse blá blá blá, aqui está um dos looks que mais tenho usado nos últimos tempos: blusa ciganinha e calça cropped. Tenho apostado muito em peças básicas e como raramente encontro algo legal, fresquinho, sem ser poliéster, eu mesma criei uma série de peças assim para a Prosa. Tô chegando no nível de consumo que sempre sonhei: aquele em que eu mesma mando produzir minha roupa. hahahahah

Mesmo com o calor intenso do Rio de Janeiro, ainda não consegui parar de usar preto o tempo todo. Já falei pra vocês que essa é a minha ~cor da segurança~ né? Então como estou numa fase mais introspectiva da minha vida, questionando tudo, pensando mil coisas (mas sem decidir nada, óbvio hahaha), o preto tem sido meu "manto da invisibilidade" #harrypotterdetected e eu me sinto verdadeiramente forte usando essa cor.

Gente, que papo de louco foi esse? Steve Jobs, astros, decisões? Comecei falando de uma coisa, terminei falando de outra. Tenho passado tanto tempo sem escrever aqui que estou perdendo a capacidade de concatenar ideias! Me perdoem. :P


Blusa: Prosa, R$ 119 aqui | Calça Cropped: Prosa, R$ 159 | Tênis: Adidas Stan Smith, presente da marca | Colar e Pulseiras: Mercado Bossa | Relógio: Cluse Watches | Óculos: Loucos por Óculos, R$ 110 | Bolsa: presente da irmã | Batom: um mega velho da L'Oréal Paris.


(Very) Slow Fashion

26 maio 2015
Dia desses dei uma entrevista para uma aluna da PUC, sobre o processo criativo da Prosa e resolvi compartilhar aqui o teor da conversa, já que muitas de vocês gostam de posts mais aprofundados sobre o tema moda. O assunto foi Slow Fashion, um conceito que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo de quem cria e produz moda. Para contextualizar vocês, slow fashion é um termo que, como o próprio nome indica, corresponde a um movimento de desaceleração da moda, a busca de uma moda mais lenta, digamos assim, que se opõe ao conceito e fast-fashion que nós conhecemos tão bem. Ronaldo Fraga é um dos estilistas brasileiros que aderiu a essa forma de trabalho, mas na Europa o conceito de slow fashion já é bem mais difundido que no Brasil e muitos designers ganham o pão nosso de cada dia sem precisar entrar na loucura de um mercado ansioso.

A ideia principal é de que o processo criativo deve respeitar algumas características que deveriam ser essenciais à produção de uma moda com qualidade: valorização da mão de obra artesanal, o uso de materiais naturais e recursos sustentáveis, a migração da produção industrial em larga escala, para a confecção em pequenos ateliês, enfim, a humanização do processo de produção como um todo, visando uma produção mais consciente e com muito mais qualidade. Se por um lado o custo dessa produção é dispendioso e gera produtos mais caros para o consumidor, por outro estes produtos são mais duráveis e chegam ao mercado com uma qualidade infinitamente superior, além de serem produtos feitos com carinho e o maior respeito pelos profissionais envolvidos.

Eu acredito que o Slow Fashion é um movimento urgente e necessário para dar fôlego a uma indústria ultra-saturada, frenética, consumista, que está beirando o colapso nervoso. Eu mesma já parei de prestar atenção a todas as coleções que entram nas lojas a uma velocidade que nem meus olhos nem meu bolso conseguem acompanhar. Com cada vez menos tempo para criar, modelar, pilotar, costurar uma coleção, e com cada vez mais demandas do consumidor por novidades, o que acontece com quem cria para o mercado de moda, é uma necessidade de produzir roupas como se fossemos padaria: 2 fornadas por dia. E o que acontece com o consumidor? Ele não consegue mais discernir sobre o que ele realmente deseja e acaba enchendo os armários de peças que duram pouco mais de 2 meses, alimentando um pequeno monstrinho insaciável dentro do bolso.

E nessa história a gente não sabe quem incentiva mais a loucura: o consumidor sedento de novidades instantâneas e 20 coleções por ano, ou as marcas que trabalham nesse ritmo alucinante, alimentando a neurose das pessoas. O fato é que hoje, com uma loja online, eu percebi que tentar sanar essa euforia consumista enchendo a loja de novidades toda semana é, além de uma tarefa impossível, uma verdadeira exaustão sem fins lucrativos. Por que novidade o tempo todo não quer dizer venda. Mas ter tempo para preparar boas novidades, isso sim dá certo. :)

 


Fotos da primeira estampa de inverno da Prosa, que ainda está em produção. A inspiração no gibão dos cangaceiros nordestinos serviu de estética para a montagem das estampas de encaixe.


E é por isso que as coleções na Prosa demoram tanto a sair: por que somos apenas 4 pessoas (eu, mamãe e duas costureiras não fixas) para dar conta de todo o processo: da criação, à venda, passando pelo design das estampas, escolha dos tecidos, impressão, modelagem, corte, pilotagem, acabamentos, costura, fotografia, redes sociais, vendas, correios, emails, etc. No começo a gente entrou nessa neurose de querer criar coleções o tempo todo, mas agora percebemos que nosso ritmo é mais lerdinho mesmo, até pela falta de mão de obra.

A gente faz tudo com calma, com tempo pra testar vários acabamentos, vários tipos de tecido, várias impressões, várias modelagens. É bem verdade que às vezes dá um nervoso de não ver a coisa pronta VERY FAST, mas a gente respira e segue em frente com a velocidade que a vida nos permite. No final das contas, além de ficarmos bem mais felizes com o resultado final das peças, temos mais controle sobre a nossa produção, ainda que ela não chegue à loja 5 meses antes da estação para a qual ela foi criada.

E vocês, o que acham desse assunto? A moda precisa desacelerar ou tá bom 5 coleções por mês nas lojas? hehehe

Beijos, Carols

Compramos o sonho

21 janeiro 2015
Apesar de ser uma pessoa relativamente desligada e desatenta para mil coisas que acontecem no meu dia a dia, eu sou bem observadora quando o assunto gira em torno do comportamento humano. Em algum momento da vida desejei ser psicóloga, não porque eu sou uma ótima conselheira, mas porque sempre tive curiosidade sobre as motivações humanas mais profundas para os nossos comportamentos.

Este ano o Small completa 6 anos de existência e neste tempo eu pude observar não só o tipo de envolvimento das minhas leitoras em relação ao meu blog, quanto a forma como outros blogs de moda/vida/etc se desenvolveram e ganharam públicos fiéis. Em tempos de redes sociais, cheguei a algumas conclusões que poderiam ser tema de tese (caso já não sejam).

Compramos o sonho.

Compramos, no sentido de consumir, claro, porque o sonho mesmo custa muito caro. Mas o que eu quero dizer com esta frase é que blogs e perfis de garotas que usam dezenas de marcas milionárias e maravilhosas, que viajam pelo mundo de classe executiva e comem nos melhores restaurantes, que usam saltos altos sem fazer calo, frequentam spas, têm personal trainer, cortam o cabelo nos melhores salões, têm vidas sociais agitadas, festas e pontes aéreas loucas, idas a Miami, maquiador e fotógrafo sempre à disposição, nos encantam pelo simples fato de mostrarem uma realidade à qual dificilmente teremos acesso como pobres mortais. E o Small e tantos outros blogs de amigas "não-ricas" kkkkk vendem uma realidade tão mais próxima da maioria das mulheres, que acabam crescendo a uma velocidade infinitamente inferior aos blogs "ricos", porque a nossa realidade já é familiar logo, menos interessante. A "vida real" não é um must-have. Na realidade do Brasil então, é quase um must-forget. E por isso queremos ver fotos lindas, comidas lindas, paisagens lindas, imagens inspiradoras. Por que "pobreza e realidade" só vendem quando fazem parte de um discurso exótico para servir como pano de fundo para o luxo.



Alessandra Ambrósio e Cara Delevingne em ensaios "favelísticos" para a Vogue Brasil.

Eu confesso: sou uma dessas seguidoras que acompanha a vida de dezenas dessas meninas que, além de abençoadas pela beleza, riqueza e elegância, têm um talento e inteligência especial para os negócios e transformam suas vidas num reality show lucrativo que eu, particularmente, adoro assistir. De verdade, sem inveja e sem falar mal, porque acho muito babaca quem perde tempo seguindo pessoas para xingar e usar sua "liberdade de expressão" pra ofender quem nem conhece.

Eu sigo, curto e admiro a vida dessas garotas e entendo que a realidade delas não é menos real que a minha. É apenas diferente. E essa realidade aumentada com lentes e filtros poderosos, com possibilidades sem limites, é o que faz com que esses blogs e perfis tenham tanto sucesso. Elas podem vestir Renner hoje e Valentino amanhã ou os dois juntos e serem descoladas, transitando entre a nossa realidade e a realidade delas. Nós só podemos vestir Renner, mas queremos sonhar com Valentino. Nós comemos arroz com feijão, mas queremos sonhar com pato confit acompanhado de batatas rústicas e aspargos. Somos humanos.



Meus it perfis preferidos - @camilacoutinho e @sincerlyjules: sonho sem ostentação.

Não, não é o Small, um blog de looks de fast-fashion, que vai ativar nosso sentido mais primitivo de desejo e ambição (saudável, claro), de mover mundos e fundos por uma vontade (ainda que material). Não é aquele blog de moda super bem escrito e cheio de informação ultrabacana, não é aquele outro cheio de dicas legais, não é o offprice, o plus size ou o mais criativo blog de moda que vai movimentar milhões de acessos por mês. O Small (e tantos outros) vai apenas mostrar que dá pra ser feliz com o que temos, mas não dá pra ser perfeita, ter a maquiagem em dia e viver num sonho. E querer um sonho pode não ser ruim, tá? Mas é impossível.

Muitas dessas meninas são hoje, o que eram as modelos, atrizes e cantoras, para nós no passado. Elas ditam, inspiram e imprimem seu estilo de vida no nosso dia a dia e é quase impossível não nos rendermos aos encantos dos seus vestidos bordados. O que gostamos de ver é aquilo que não podemos ter (seja agora, seja a longo prazo), tipo amor cafajeste. É tão humano e tão verdadeiro, que chega ser estranho ter que dizer isso, mas eu sei, por exemplo, exatamente as fotos que mais vão fazer sucesso no meu instagram, porque são aquelas que trazem os sentimentos de desejo irreal: praias paradisíacas e poses de diva. hehehehe Nós consumimos o sonho, o aspiracional, o impossível e até mesmo o que não existe. Nosso ideal de vida é impossível, nosso padrão de beleza é impossível, nossa concepção de amor é impossível e é impossível para todo mundo, inclusive para elas, já que muitas fazem da vida uma correria insana que eu nem invejo, porque sei que essa vida tem um custo que eu, Carolina, não gostaria de pagar. Só de receber, claro. hahahah

Se por um lado esse "amor platônico" gera uma série de inseguranças, frustrações, rompantes de ódio e inveja, por outro alimenta um desejo muito poderoso de conquistar mais e melhor. A gente aprende a admirar a vida do outro e a trabalhar para buscar experiências semelhantes. Vejo perfis de meninas que hoje têm milhares de seguidoras porque postam apenas roupas maravilhosas, maquiagens perfeitas, cabelos sem um fio fora do lugar e nada, absolutamente nada tão real quanto uma unha descascada ou um look de metrô. E é ok seguir esses perfis, desde que saibamos discernir o que nos faz bem e o que nos incomoda. (e em caso de incômodo, apenas paramos de seguir, sem xingamentos)

Eu ando de metrô, você anda de metrô, todo mundo anda de metrô, mas a gente quer ver o sonho de andar de metrô em Nova York, com um visual high-low que mistura um trench coat Burberry com tênis allstar furado. É claro que eu falo por mim (e por amigas com quem já debati este assunto) e sei que muitas mulheres podem não se identificar com nada neste texto, mas acredito que todas nós, em algum momento da vida, desejamos alguma coisa muito fora da nossa realidade, porque o sonho não custa nada e a realidade às vezes custa até de acreditar.

Aí eu vejo toda uma comoção em prol da mulher real, a beleza real, o corpo real, da vida real e penso: será que as pessoas realmente querem ver isso? Se quisessem, porquê falariam do nariz de uma menina, do joelho da outra, da gordura de não sei quem? Será que vão realmente consumir essa realidade? Acredito que não, porque se fosse assim as "blogueiras da vida real" seriam verdadeiras It-girls. E tenho um exemplo pessoal de como essa vontade de ter o sonho funciona mais do que a vontade de ver a "realidade": uma das fotos mais curtida da história do meu instagram não é a que eu estou desenhando uma nova ilustração, é aquela em que eu estou totalmente fora da minha realidade, numa lancha (que não é minha), de biquini (da minha loja), curtindo a vida glamurosa (e sem dinheiro), numa ilha paradisíaca (com mil pessoas), com o sorriso de quem acabou de ganhar na mega-sena (só que não).

É um sonho, ainda que breve.

Beijos, Carols

O custo do preço justo

18 setembro 2014
Imagem: fragmento de uma obra do Vacilante

• Preparem os olhos, o post é grande. •

Fim de semana passado, mais precisamente no domingo, visitei a Fábrica da Bhering, local que reúne artistas de várias esferas (moda, música, artes plásticas). Comentei aqui no blog que o lugar é sensacional e pretendo fazer uma visita sem pressa, para fotografar em detalhes aquele mundo de criatividade. Num dos muitos (e lindos) espaços que entrei, descobri o trabalho de uma estilista, Angela Brito, e me apaixonei pela coleção nova. Um vestido especificamente me chamou a atenção: era preto e branco, corte simples, mas muito, muito bonito. Perguntei o preço: R$ 1200 reais. Mas esses mil e duzentos reais vieram acompanhados de outro texto: "é feito em seda pura, alta costura, não usamos overlock no acabamento das roupas." Quando olhei para a parte interna do vestido, descobri o quão perfeito ele era. O acabamento era tão impecável que daria para vestir do avesso. 



Para quem não conhece profundamente o mundo mágico da costura, overlock é um tipo de máquina de costura que é usada para unir as partes de uma roupa e fechar essa peça, de forma que o tecido não desfie. O que a overlock faz é "aparar" o tecido, ao mesmo tempo que costura e arremata. É uma máquina muito prática e quem domina a monstrenga (tenho uma que reside na minha sala), consegue fechar várias de peças de roupa por dia. É uma máquina indispensável em qualquer linha de produção de larga escala. Com certeza a China está cheia delas.



Porém a overlock oferece um acabamento digamos, "pobre". Pobre no sentido de ser um acabamento simples que, ao virar a roupa do avesso, vemos o arremate das linhas e a emenda do pano. E sim, 90% da roupa que vestimos é fechada numa overlock. Pode virar sua blusa do avesso e observar: tem overlock. As roupas da Prosa, tem overlock, as roupas da Farm tem overlock. Quando a vendedora da loja me disse que as roupas confeccionadas não tinham esse acabamento, aquilo ressoou na minha cabeça por uns bons minutos e me fez refletir sobre o preço justo da moda.

Resolvi dividir com vocês minha reflexão sobre o assunto e estruturei 3 tipos de valor básicos de uma peça de roupa: o valor de produção, o valor percebido e o valor agregado. O valor de produção é o custo (centavo a centavo) da peça em si. O valor percebido é aquele atribuído pela cliente, conforme suas próprias referências pessoais. O valor agregado é a marca em si, o universo de experiências que a marca construiu para oferecer aquele produto. Agora vou destrinchar o raciocínio para vocês entenderem onde eu quero chegar e vou dar dados quase matemáticos, por que além de consumidora, eu agora estou do outro lado da moeda, o lado de quem produz.

Se hoje eu, Carolina Burgo, pequena empreendedora individual sem estrutura de fábrica nem costureiras fixas contratadas, quisesse confeccionar apenas um único vestido longo godê (um tipo de corte), em viscose, com estampa exclusiva (desenhada por mim, sem custo de designer), eu teria que desembolsar, aproximadamente, a seguinte soma: R$ 81 pela impressão de 3 metros de viscose (o suficiente para um vestido longo godê) + R$ 60 para desenvolver a modelagem numa profissional competente + R$ 15 de costura (se eu arrumar uma facção e fizer em grande quantidade. Uma costureira avulsa cobra uns R$ 40 por baixo) + digamos R$ 10 em aviamentos = R$ 166. Isso significa que, se eu quiser vender esse único vestido com uma margem de lucro que me permita, um dia, colocar a peça em promoção e, ainda assim, conseguir pagar os custos de produção, ele sairia por, no mínimo R$ 332. Este é o custo do meu vestido costurado em facção, com rapidez, tecido simples (viscose não é tecido nobre) e com OVERLOCK. Agora imaginem todo esse processo só que com seda pura, alta costura e horas de acabamento de alfaiataria com mão de obra especializadíssima (e rara). É claro que tem que custar R$ 1200. Aí eu entro numa loja de fast-fashion qualquer e encontro um vestido longo por R$ 89.



OITENTA E NOVE REAIS. Parece muito (e é), se pensarmos em termos de realidade brasileira, cesta básica, salário mínimo e bolsa família, etc, mas se analisarmos o mercado de moda no Brasil, a carga tributária em cima da matéria prima, fábricas, produção, energia, a falta de mão de obra qualificada, o imposto sobre as vendas, então R$ 89 é pouco. Bem pouco. Mas R$ 89 num vestido longo é considerado um preço "justo" pela maioria de nós (me incluo aqui, ok?), por que o valor que o cliente percebe diz respeito ao que ele considera coerente em relação aos seus hábitos de compra e possibilidades financeiras já que, levando para a ponta do lápis, não existe matemática certa no mundo que consiga fazer com que um vestido produzido 100% no Brasil tenha o mesmo valor de um produzido na China. Ou seja, a nossa ideia de moda acessível tem as pernas quebradas e, por mais que eu seja adepta de comprar roupa barata, hoje eu tenho plena consciência que a conta não fecha. E aí entramos em outra questão do raciocínio.

Que custo tem esse preço justo?

Esse preço justo de R$ 89 tem um custo muito sério que não sai do nosso bolso, mas tem um impacto devastador na nossa economia: a China é hoje, a maior exportadora de matéria prima e bens de consumo do mundo. Isso todo mundo sabe. O governo chinês oferece incentivo fiscal para quem quer exportar produtos chineses (isso explica a quantidade de lojas chinesas espalhadas pelo mundo) e, enquanto a China produz toneladas de viscose estampada por 1 dólar o metro, no Brasil a mesma viscose chega ao consumidor final (no caso, os produtores de roupa) entre R$ 7 e R$ 12 o metro (dependendo da praça e da qualidade da viscose) e se for estampa exclusiva e produzida em território nacional, esse valor triplica.  Então nossas lojas de fast-fashion com "preço justo" compram a viscose diretamente da China, produzem suas coleções com mão de obra escrava de lá, ou da Bolívia, ou da Índia (essa notícia é velha, ein), importam para o Brasil com custos baixíssimos (tipo, 2 ou 3 dólares a peça) e vendem pelo dito preço justo: R$ 89. Quem lucra com isso? A China, claro. Nossa produção brasileira sai perdendo feio por que é dispendiosa, tornando impossível um produtor nacional competir com os preços do gigante asiático. 



Querem um exemplo? Recentemente a dupla de estilistas de alta costura Marcela Calmon e Renata Salles, da marca carioca Filhas de Gaia, anunciou à imprensa que iria interromper sua produção de alta costura por falta de recursos.  Triste é pensar que o cenário de moda no Brasil não é mais expressivo por falta de recursos e, não pela falta de gente criativa. É de se espantar ver isto acontecer com uma marca de luxo associada à bem sucedida Maria Filó, mas o mercado de moda é difícil mesmo, e se isso acontece com uma marca com estrutura e capital, imaginem a dificuldade de sobrevivência (e crescimento!) de uma marca pequena, num mercado que tem livre acesso aos paraísos fashion do Ebay e do AliExpress? Não bastasse a inflação do país, o aumento constante do valor de todos os bens essenciais (comida, aluguel, energia, etc), ainda temos custos altíssimos de produção e dificuldade de encontrar mão de obra especializada, já que costureira é uma profissão em extinção e contratar profissionais capacitadas no Brasil, pagando um salário humano e decente, custa muito caro aos bolsos do empregador. Então como sobreviver a este cenário sem ficar, literalmente, pelada?



Imagem: Fashion Collage by Painted Perspective

É aqui que entra o último valor de uma roupa: o valor agregado. Hoje, uma marca de moda que queira fincar bandeira no mercado competitivo tem que agregar algum valor às suas peças, um valor que é intangível, impossível de mensurar, mas é o que vai fazer o consumidor optar pela compra de um bem que não é necessidade fundamental. É neste ponto que entra o marketing de moda, o branding e toda aquela parafernalha de mecanismos que as marcas criam para envolver suas consumidoras em algo além da roupa. Esse valor é a única coisa que justifica (no inconsciente do consumidor) pagar mais caro por uma peça. Esse valor agregado é um conjunto imenso de trocas e experiências que a marca proporciona para a consumidora, que vão desde a embalagem, decoração da loja, cheiro da roupa, atendimento das vendedoras, até a "persona" que essa marca representa, o estilo de vida, a música que ela "ouve", o jeito que se comunica nas redes sociais, e etc, etc, etc. E adivinhem só? Criar esse universo também tem um custo bem brasileiro.

O que eu quero dizer com todo este texto (desculpem pela prolixidade), é que muitas vezes aquilo que nos parece um preço injusto, absurdo, ridículo, às vezes é apenas um preço que não podemos pagar. Não é um preço fora da realidade, é um preço fora da NOSSA realidade. E é legítimo não poder/querer pagar 1200 reais num vestido quando temos opções mais baratinhas por aí, mas esses 1200 reais pagam, a marca, o material, o design, a qualidade, a perfeição e as inúmeras horas de trabalho impecável e sem overlock, de um artesão em extinção. Injusto é pagar R$ 300 num vestido da China, nas araras de uma fast-fashion. (ok, a gente sabe que tem marca de luxo explorando mão de obra escrava, mas não estamos discutindo isso.)

Não quero, com isto, justificar os preços abusivos que andamos vendo por aí e também não quero dizer que vou deixar de comprar em fast-fashion por que meu bolso não comporta marcas de luxo (por favor, vamos relativizar), quero apenas trazer esta reflexão: o "preço justo" da China está apertando o pescoço de milhões de pessoas, para folgar o nosso bolso. 

Beijos, Carols

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